Sempre escolha o assento próximo à janela. Alguém certamente te pedirá para ceder o lugar – quem não gosta de se sentir potente, ao se ver passando bem acima de quem um dia te sacaneou, mas hoje sequer lembra do seu existir? Responda o que lhe calhar bem e julgue pelas aparências: algumas pessoas não têm o precioso dom de respeitar espaços, e vão sempre trombar seu cotovelo horroroso quando você estiver no ultimo gole do suco artificial com três pedras de gelo que você tanto estimou durante todo o serviço de bordo. Encha o seu bolso de todos os tipos de bala que te oferecem. Podem ser uma excelente arma de suborno para o pirralho de trás que há duas horas acha que a sua poltrona reclinável – que só não é mais dura que você – é um saco de pontapés. Abuse da boa vontade. Aperte todos os botões, acenda todas as luzes. Forje um ataque de pânico ou comece a cantarolar. Atire a revista da companhia aérea dentro da bolsa, mesmo não sabendo para que servirá. Mastigue um pedaço do lanche de plástico, esconda-o no saco de vômito e diga ter tido o seu melhor jantar da ultima década. Pergunte se não coam café, como adoçam o suco, ou se tem um chuveiro no projeto de banheiro. Faça do colega ao lado seu melhor amigo de infância. Conte-o todos seus problemas e seus piores segredos. Ele esquecerá de você logo após o avião pousar. Fale do seu chefe inconveniente e da sua vizinha eloqüente, e só depois se certifique se eles têm alguma ligação familiar. Será sua única companhia nas próximas escalas, então se gabe dos seus feitos, suas vantagens irrelevantes, mostre de relance os defeitos. Os relacionamentos são descartáveis e sem efeitos, portanto não se esqueça de nunca passar o número do seu celular. Tudo é banal, e quando minúsculas e insignificantes cidades desaparecem em um instante, quase devoradas pelo ar, não há nada consistente o suficiente que valha realmente a pena se apegar.
28
Jan
Como sobreviver a vôos
Sempre escolha o assento próximo à janela. Alguém certamente te pedirá para ceder o lugar – quem não gosta de se sentir potente, ao se ver passando bem acima de quem um dia te sacaneou, mas hoje sequer lembra do seu existir? Responda o que lhe calhar bem e julgue pelas aparências: algumas pessoas não têm o precioso dom de respeitar espaços, e vão sempre trombar seu cotovelo horroroso quando você estiver no ultimo gole do suco artificial com três pedras de gelo que você tanto estimou durante todo o serviço de bordo. Encha o seu bolso de todos os tipos de bala que te oferecem. Podem ser uma excelente arma de suborno para o pirralho de trás que há duas horas acha que a sua poltrona reclinável – que só não é mais dura que você – é um saco de pontapés. Abuse da boa vontade. Aperte todos os botões, acenda todas as luzes. Forje um ataque de pânico ou comece a cantarolar. Atire a revista da companhia aérea dentro da bolsa, mesmo não sabendo para que servirá. Mastigue um pedaço do lanche de plástico, esconda-o no saco de vômito e diga ter tido o seu melhor jantar da ultima década. Pergunte se não coam café, como adoçam o suco, ou se tem um chuveiro no projeto de banheiro. Faça do colega ao lado seu melhor amigo de infância. Conte-o todos seus problemas e seus piores segredos. Ele esquecerá de você logo após o avião pousar. Fale do seu chefe inconveniente e da sua vizinha eloqüente, e só depois se certifique se eles têm alguma ligação familiar. Será sua única companhia nas próximas escalas, então se gabe dos seus feitos, suas vantagens irrelevantes, mostre de relance os defeitos. Os relacionamentos são descartáveis e sem efeitos, portanto não se esqueça de nunca passar o número do seu celular. Tudo é banal, e quando minúsculas e insignificantes cidades desaparecem em um estante, quase devoradas pelo ar, não há nada consistente o suficiente que valha realmente a pena se apegar.
Sobre a autora

Nina Rocha Campos: humor, sarcasmo, filmes velhos, gírias antigas, rascunhos esquecidos, críticas ácidas, frases vagas, música barulhenta, café forte, alguns livros, chocolate meio-amargo e 17 anos bem vividos.-

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