Torradas Tostadas

Memórias de 94 – Parte II

Agora, seu nome foge a minha memória. Talvez eu me recorde depois, mas não acredito vá fazer alguma diferença. Retratei minha grosseria e o disse para se acostumar. Dali pra frente, e eu sabia disto, nossas brigas desnecessárias seriam extremamente comuns. Descobri sua inconstância aos poucos. No primeiro dia, almoçamos juntos. No segundo, fazíamos graça e jogos mudos com quem nos fitavam. Choramos a morte do Senna, desesperadamente lamentamos o suicídio do Kurt Cobain, juntos. E eu não gostava das musicas que ele escutava. Hoje, alguns daqueles barulhos são os únicos sons que consigo ouvir de verdade. Nós já não nos importávamos com os jogos de futebol ou com o aluguel atrasado do meu então vazio apartamento. Estávamos constantemente aprisionados naquele lugar, um no outro. As fugas periódicas não iam mais longe do que ao cinema na esquina de sua casa. Naquele ano conheci alguns diretores que vidravam o seu olhar de tal forma que nem eu conseguia, mas não me importava. Vi-me fascinada quando conseguiu escolher o meu lanche favorito sem minhas dicas ou opiniões. Mostrou-me alguns filmes, e eu o emprestava alguns livros. Nunca passara das primeiras páginas. Ia sempre direto as últimas folhas, me contava o final e tentava adivinhar o resto da história. Pergunto-me se também tentava adivinhar o desenrolar da nossa. Começou assim, do nada, e em pouco tempo éramos como duas metades da mesma pessoa. O ruim é que às vezes não gostamos de nós mesmos.
Nossas carcaças começaram a desgastar. O cheiro com que voltava do trabalho me irritava. Eu já não gostava de esperá-lo chegar para começar a minha jornada e a nossa dependência me incomodava demais. E nenhum de nós tinha coragem de enfrentar a verdade. E ninguém queria acreditar. Mas tentamos. Tentamos exaustivamente, tentamos até não podermos mais. Quando decidi partir, estávamos no cinema. Sai em meio uma cena qualquer, e deixei com ele tudo que tinha. Pela primeira vez, desisti. Seu cansaço não me alcançou. Pergunto-me em que estado o deixei: se respirou aliviado ou se lamentou e ruminou por alguns dias a minha permanente ausência ou que fim meus discos levaram. Hoje não sei o que faz ou quem ele agora é. Penso que o vi um dia desses, caminhando na multidão. Pensei em pará-lo e perguntar as horas. Mas dessa forma, nossa história não seria tão interessante a ponto de valer a pena contar-la. Talvez voltemos a nos encontrar ou ainda ignoraríamos nossas existências por um tempo aleatório. Mas não é isso o que verdadeiramente importa.

Agora, seu nome foge a minha memória. Talvez eu me recorde depois, mas não acredito vá fazer alguma diferença. Retratei minha grosseria e o disse para se acostumar. Dali pra frente, e eu sabia disto, nossas brigas desnecessárias seriam extremamente comuns. Descobri sua inconstância aos poucos. No primeiro dia, almoçamos juntos. No segundo, fazíamos graça e jogos mudos com quem nos fitavam. Choramos a morte do Senna, desesperadamente lamentamos o suicídio do Kurt Cobain, juntos. E eu não gostava das musicas que ele escutava. Hoje, alguns daqueles barulhos são os únicos sons que consigo ouvir de verdade. Nós já não nos importávamos com os jogos de futebol ou com o aluguel atrasado do meu então vazio apartamento. Estávamos constantemente aprisionados naquele lugar, um no outro. As fugas periódicas não iam mais longe do que ao cinema na esquina de sua casa. Naquele ano conheci alguns diretores que vidravam o seu olhar de tal forma que nem eu conseguia, mas não me importava. Vi-me fascinada quando conseguiu escolher o meu lanche favorito sem minhas dicas ou opiniões. Mostrou-me alguns filmes, e eu o emprestava alguns livros. Nunca passara das primeiras páginas. Ia sempre direto as últimas folhas, me contava o final e tentava adivinhar o resto da história. Pergunto-me se também tentava adivinhar o desenrolar da nossa. Começou assim, do nada, e em pouco tempo éramos como duas metades da mesma pessoa. O ruim é que às vezes não gostamos de nós mesmos. Nossas carcaças começaram a desgastar. O cheiro com que voltava do trabalho me irritava. Eu já não gostava de esperá-lo chegar para começar a minha jornada e a nossa dependência me incomodava demais. E nenhum de nós tinha coragem de enfrentar a verdade. E ninguém queria acreditar. Mas tentamos. Tentamos exaustivamente, tentamos até não podermos mais. Quando decidi partir, estávamos no cinema. Sai em meio uma cena qualquer, e deixei com ele tudo que tinha. Pela primeira vez, desisti. Seu cansaço não me alcançou. Pergunto-me em que estado o deixei: se respirou aliviado ou se lamentou e ruminou por alguns dias a minha permanente ausência ou que fim meus discos levaram. Hoje não sei o que faz ou quem ele agora é. Penso que o vi um dia desses, caminhando na multidão. Pensei em pará-lo e perguntar as horas. Mas dessa forma, nossa história não seria tão interessante a ponto de valer a pena contar-la. Talvez voltemos a nos encontrar ou ainda ignoraríamos nossas existências por um tempo aleatório. Mas não é isso o que verdadeiramente importa.

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Sean Lennon

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Imagine se você fosse músico, e seu pai fosse Keith Moon, Angus Young ou Freddie Mercury. Ok, desconsideremos a última possibilidade. Nem sempre carregar um sobrenome famoso pode ser uma vantagem. Além da pressão da mídia, vai ter sempre aqueles chatos “será que o talento é herança genética”. Não é o que acontece com o filho do beatle John, Sean Lennon. Filho de John e Yoko Ono (e nascido exatamente no mesmo dia que seu pai) é compositor, escritor, e até no cinema ele já se meteu. Apesar das comparações inevitáveis com os pais, os traços de Sean não negam nem um pouco o quanto de seu pai que carrega consigo. Sean pode não ter o carisma do pai ou a ousadia da mãe, mas com seu álbum solo lançado em 2006 Friendly Fire – que é trilha sonora do filme homônimo em que também atua – e canções avulsas lançadas pelo seu site, chama atenção pelas letras melancólicas entre o violão e baixo que acompanham a voz rouca do mais novo dos Lennons. Sean ainda trabalhou com o guitarrista do The Strokes, Albert Hammond Jr, em seu álbum de estréia, e tem em seu currículo parcerias com Mark Ronson e shows com o mutante Arnaldo Baptista. É bom ficar de olhos – e ouvidos – abertos, porque não há dúvidas de que qualidade, talento e oportunidades não faltam para o rapaz.

posted by Nina R. in Música and have Comments (11)