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A casa da mãe Joana
O Brasil está de portas abertas. E se bobear, a sua casa também. Eles chegam sem cerimônia, não tocam a campainha antes de entrar e vão sem nenhum receio ao que temos de melhor. Não é a guarda imperial, os nazi-fascistas ou extraterrestres: as celebridades estão aí.
Um novo regime se instaura na “terra brasilis”: o astrocentrismo. Não importa o dinheiro na cueca, esquemas milionários ou o aquecimento global. O entretenimento atual e a única preocupação parece ser a vida, obra e desgraça de qualquer indivíduo que se mova e apareça na mídia e nos programas de fofocas. O nosso predatismo é diferente. Somos sanguessugas que gostam de se alimentar do pior prato que consta no cardápio. As celebridades se prostituem por seus espetáculos e pedem em troca a nossa dignidade. De qualquer forma, não há do que reclamar; nós mesmos estipulamos o preço baixo. Beijamos os seus pés, mandamos buquês caros para os hotéis de luxo. Não importa o quão grave esteja a crise ou a seca no nordeste; há sempre um fundo de reserva para atender às exigências, aos caprichos, e às necessidades inúteis dos pobres coitados que fazem tanto sacrifício saindo de suas ilhas particulares por alguns milhões e vieram a um pais de terceiro mundo.
E não importa o rei do pop da vez: sempre terá um súdito brasileiro disposto a se sacrificar.
Bom Brasileiro
O brasileiro é um ser conformado. Senta a bunda gorda em frente a televisão e não faz nada para interferir em nenhum tipo de mudança. Preguiçoso por natureza, prefere ignorar o caos que o ronda e ser alienado ao achar que está tudo sempre bem. Coloca a culpa de todos os problemas no sistema ou no governo, mas é incapaz de recolher o próprio lixo que produz. A indiferença e o descaso com o outro está em toda esquina, porque para o brasileiro é mais fácil negar um “bom dia” do que um pedaço de pão. O brasileiro é hipócrita. Contradiz os seus próprios princípios, quando esses existem, faz pouco caso da violência e corrupção, como se fosse tudo muito normal. Banaliza, canta palavras de baixo calão, mas se escandaliza com pouca roupa fora de época de carnaval. Orgulha-se de não ler livros, de não produzir, de não fazer nada. É uma realidade lamentável, mas poucos são os que realmente enxergam ou admitem a mediocridade que nos envolve e fazemos parte a todo instante. Se mudarmos a postura indiferente e egoísta para verdadeiros cidadãos socialmente, culturalmente e politicamente ativos, somos capazes de alguma metamorfose massiva, ou de uma revolução qualquer? Vai saber… Ser brasileiro não é só contribuir para o produto interno bruto.

O Brasil, o futebol e os brasileiros

Ao longo da história da civilização, o orgulho pela pátria foi um fator decisivo na formação de muitos estados nacionais. A França precisou invadir a Argélia, a Itália venceu a Áustria e a França, e a Alemanha teve que atingir uma plenitude econômica e desenvolver o sentimento de raça superior para se denominar uma nação. No Brasil, não é diferente. Mesmo que não precisemos de guerras ou invasões, enfrentamos muitas batalhas para alcançar o tão sonhado “sentimento nacional”. As lutas dos brasileiros são em grandes arenas gramadas, torcedores eufóricos, como se assistissem a uma luta de gigantes do Coliseu; a guerra Brasil versus mundo se chama futebol. Cariocas e paulistas esquecem suas diferenças, os sulistas nunca são tão unidos ao resto do país, ninguém nunca foi tão brasileiro. E não é para menos; o Brasil é o país do futebol, carnaval e samba. A emoção de uma bola na trave, o balanço da rede na hora do gol e o ritual quase religioso do futebol no domingo à tarde, fazem parte da paixão nacional. Unanimidade de esporte favorito, o futebol caracteriza nosso país. Os ídolos nacionais? Nada de Santos Dummond, Juscelino Kubischeck ou Carlos Drummond de Andrade. Os nomes lembrados sempre serão de grandes ícones do futebol, como Pelé, Garrincha e Ronaldinho. Mais do que amor, o futebol é o vício brasileiro, o ópio do povo, e um fanatismo muitas vezes doentio.
Mas ser brasileiro é só ser patriota na hora da Copa ou nos confrontos com os grandes rivais? Por mais absurdo que possa parecer, falta amor à pátria. Ser brasileiro nas Olimpíadas ou no carnaval é fácil, mas as pessoas que valorizam a nação estão escassas. No Brasil faltam brasileiros, nossas terras são habitadas por um povo alienado e indiferente, que ignora sua própria cultura. A diferença entre a Grécia antiga e o Brasil atual, é que o pão é o Bolsa-Família, e o circo, o futebol. Onde está aqueles que têm orgulho do país na hora de revogar seus direitos aos governantes, acabar com a educação precária, criticar a ocupação indevida de terras, o desmatamento e contrapor tudo que lhe é estabelecido? O Brasil é carente de pessoas que o represente e lutem pela construção de um estado mais digno e mais igual, e não é através do futebol que isto será alcançado.
Nosso país precisa de mais brasileiros que assumam com sua pátria o compromisso de lutar por melhoras na qualidade de vida e um país menos corrupto. Nada adianta vibrar e torcer com seus conterrâneos, se depois, eles se tornam vítimas de preconceito, violência e desigualdade. A batalha toma uma dimensão muito maior que os campos; o Brasil precisa de brasileiros não só no futebol, mas o tempo inteiro. Ser brasileiro ai muito além dos gramados, ser brasileiro é viver em harmonia com sua pátria, lutando por um país melhor, mais unido e mais justo, e só então, todos terão orgulho de realmente serem brasileiros.
Sobre a autora

Nina Rocha Campos: humor, sarcasmo, filmes velhos, gírias antigas, rascunhos esquecidos, críticas ácidas, frases vagas, música barulhenta, café forte, alguns livros, chocolate meio-amargo e 17 anos bem vividos.-

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