O Encontro dos Pacinos

Havia uns sete, provavelmente oitos homens ao redor da mesa. O lugar era discreto, e apesar das mulheres presentes, eram eles quem mais chamavam atenção. Mudavam o jeito de se vestir e o sotaque, mas eram todos muito parecidos, talvez fossem até irmãos. Na ponta da mesa, todos que chegavam, em um ato de respeito, beijavam a mão daquele que ora ou outra, comentava com um dos colegas de bar sobre o quão perigoso é ser um homem honesto.

- Mas cara, não tenho esse problema. Eu sou Tony Montana. Se você fode comigo, você ta fodendo com o melhor. Se quiser, posso te dar umas dicas de negocio, que cara, os Estados Unidos, a Sicília e o mundo vão ser pequenos pra você.

- Tony, fico muito honrado com a sua proposta, mas estou tentando manter a família Corleone completamente legal. Eu prometi a minha esposa Kay alguns anos atrás.

- Ei Michael, não dê ouvido a ele. Sou advogado, e acredite: você não vai querer sujar as suas mãos. O Tony é louco, megalomaníaco. E a vaidade dele… Ah! Vaidade é definitivamente o meu pecado favorito.

- É… Já me alertaram da fama do Montana, mas ele me traz uns bons charutos cubanos. É como meu pai dizia, mantenha seus amigos perto, e os seus inimigos mais ainda… Mas quem é você?

- Você conhece Rolling Stones? Please allow me to introduce myself…

- Não, não é bem da minha época…

- Então no caso, sou John Milton. A mão na saia da Monalisa. Eu sou uma surpresa Michael, eles não me vêem chegando.

- Com licença, você é o Don? – Diz um homem mais simples do que os outros, roupa branca, cigarro na boca, nervoso.

Michael acena com um sorriso e confirma com a cabeça.

- Pode me chamar de Michael.

- Don, eu sou o Sonny e preciso muito de um favor seu. É meio constrangedor pedir isto, mas… Eu já tentei o SUS, assaltos a banco…

- Assaltos?

- É, eu roubei um banco porque lá tinha dinheiro… Eu não sei a quem mais recorrer.

- Não envolve matar ninguém, certo? Porque eu estou farto destes negócios.

- Não, não. Eu preciso de dinheiro Don… Quer dizer, Michael. Eu preciso de muito dinheiro. Meu amigo Leon precisa de ajuda. Bem, não conte pra ninguém, mas ele é meu amante, e… Queremos que ele troque de sexo. Olha só como ele é.

Michael se surpreende a pegar a foto.

- Como ele se chama mesmo?

- Leon.

- Tem certeza que é Leon?

- Sim, absoluta. Algum problema?

- Não, ele só me lembra alguém que conheci. Meu irmão Fredo… Fredo partiu meu coração… – E por alguns instantes, Michael para, elevando a mão ao rosto, eventualmente passando-o no cabelo. – Fredo partiu meu coração. Espero que o Leon não parta o seu. Passe no meu escritório na semana, Sony, certo?

Sony, grato, abraça o Don e, como de costume, vai beijar-lhe a bochecha, quando é surpreendido por uma negação com a cabeça, indicando-lhe a mão.

- Melhor não arriscar.

E entre uma e outra taça de vinho, outros homens, também parecidos com os outros, cochicham entre si.

- Ah, as pessoas são mesmo complicadas. Quando precisei de uma mulher, tive que a inventar, elas devem estar em extinção, por isso os caras querem mudar.

- Ah, cale-se! Quem é você, Viktor Taransky? Você não sabe nada de mulheres! Você é um produtor de cinema falido que não conseguiu nem mesmo ficar com a sua própria esposa! Mas eu também não entendo esses caras… Olhe este lugar… Mulheres! O que você pode dizer delas? Quem as inventou? Deus deve ser mesmo um gênio!

- Estou farto do seu mau humor, Frank. Posso até ser um produtor falido, mas fui o único que quis fazer um filme sobre você. Mas quer saber? Eu desisto. Você não vale o meu esforço. Eu estou indo, e diga ao seu amiguinho Robin que ele também está demitido. Não gostei mesmo da atuação dele com o George Clooney em Batman.

- Vá brincar com o seu computador, Taransky! Vá com Deus, e não volte mais!

- HAHAHA, Frank, deixe-me te dar umas informações sobre Deus: Deus gosta de assistir. Ele é um pregador de peças, pense nisso. Ele dá aos homens o instinto. Ele dá aos homens esse presente extraordinário, e então, por pura diversão, ele estabelece as regras ao contrário: olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula. HAHA E enquanto você está indo de passo em passo, o que ele faz? Ele está rindo de você! Deus é um sádico, e isso vale a pena? NUNCA!

- Ah, Milton, você e seu discurso satânico, você pode até ter razão, mas isto cansa, sabia? Agora, se vocês me dão licença, tem uma porção delas loucas para dançar um tango argentino e apreciar uma boa comida, e é exatamente o que eu irei fazer. Mas… QUE MERDA! Quem coloca essas mesas no caminho da pista? Quero falar com o gerente dessa pocilga, além do bife ser péssimo, ainda tenho que esbarrar com essas malditas cadeiras de segunda mão!

- Pois bem, o gerente sou eu.

- Eu? EU QUEM? Eu não sei onde você está e nem sei QUEM VOCÊ É!!! Não sei se você percebeu, MAS EU NÃO ENXERGO!!!

- Acalme-se, Coronel Frank Slade… Sou o gerente e dono do El Paraiso, Carlito Brigante, e honestamente, estou tentando me manter fora de confusão.

- Acalme-se??? Não se consegue mais um lugar para tomar um vinho tinto e dançar com uma bela mulher mais sossegadamente. Isso é um ultraje! Bons tempos eram o do Babylon Club em Miami, mas o merdinha do Tony tinha que estragar tudo de novo…
- Ei, Frank, estou aqui e escutei isso! E El Paraíso pra mim era um furgão fodido que eu trabalhei quando cheguei de Cuba lavando uns pratos… Também não gosto daqui. Brigante, faça-me um favor e dê-me esse lugar e em menos de três meses você estará milionário!

- Montana, acho que não. Sei que você entende de clubes e restaurantes, mas o seu negócio não acabou muito bem, lembra? E favores… Favores vão te matar mais rápido do que uma bala.

- Foda-se, eu sou Tony Montana, foda-se você e seus negócios de merda! O mundo é meu!

Quarenta minutos e toda a história de como Montana dominou Miami depois, todos estavam já estavam exaustos de tanta gabação e das correntes de ouro que ele continuava a mostrar quando surgiu um novo assunto em um dos cantos da mesa.

- Mas Michael, você era um homem tão resguardado, serviu na guerra como eu, como foi se envolver na Máfia?

- Ah, Frank, é complicado. São os negócios da família, e não havia mais em quem confiar. Meu pai estava doente, o Sonny foi baleado… Tive que matar Sollozo com minhas próprias mãos, e depois, foi ficando cada vez mais difícil sair do negócio…

- Mas qual é exatamente o tipo de negócio, Michael? As drogas hoje dão um bom lucro… Tem prostituição?

- Não, não. Nada disso. Dia desses fiz negócio com um tal de Walter Abrams, apostas de jogos, coisas assim. Ele me soou meio ambicioso, daqueles que fazem tudo por dinheiro, e até me senti meio culpado por estar investindo nesses jogos de azar…

- Ah, Michael, vamos lá… Não se sinta culpado. A culpa é um saco de tijolos, tudo que você tem que fazer é tirá-lo das costas!

- Falar é fácil, John Milton! Ninguém com a mente sã nega que o século XX foi todo seu. Sejamos francos, o que é meu império perto do seu? Ok, os Corleone dominaram Nova York, Little Italy… A bolsa de valores, a China, a Europa… Isto tudo é seu!

- Sim, é verdade. Mas é o que eu te digo… Liberdade, baby. Liberdade, nunca precisar dizer que sente muito ou que se arrepende.

- Mas para você é fácil. Eu prometi a Kay…

- Ah, claro que você prometeu a Kay, Michael! Mas e daí?

- Eu a amo!

- Ah, foda-se o amor. O amor é superestimado. Quimicamente, não é diferente do que comer uma barra de chocolate.

- Você não entende John…

- Não enche John. É quem ele é, é o que ele é. Certo ou errado, você não pode mudar isso.

- Ah, claro, Carlito. E o que você entende disso? NADA! Você passou o que? Os últimos dez anos na cadeia?

- Sim, claro, passei os últimos dez anos na cadeia, porque eu te liguei e pedi que você me mandasse um advogado decente…

- Olha, eu tentei… O Kevin Lomax iria te representar, mas não é culpa minha que o babaca estorou os próprios miolos!

Os focos de conflito na mesa começavam a ficar mais evidentes. Alguns já iam partindo, o timbre da discussão ficava mais alto, e o nível, cada vez mais baixo. Perto do clube já fechar e todos que restaram partirem, chega um último homem, que aparentava ter interesses diferentes dos demais.

- Boa Noite, sou o detetive Will Dormer, estou procurando o Tony Montana…

– EI, você não é aquele policial que matou o próprio parceiro no Alasca? Eu não gosto de policiais, muito menos de policiais corruptos… Diga olá para o meu amiguinho!!!

- Ah, Michael, até quando o Tony vai achar que metralhadoras são brinquedos?

- Eu não sei… Mas é melhor pedirmos a conta e partirmos o mais rápido possível, porque ouvi dizer que quem vai assumir o caso é o Vicent Hanna… E o Robert De Niro me alertou que eu não quero mexer com ele… Vamos Milton, eu tenho uma casa na Sicília , te contrato como meu consigliere e posso te proteger… Mas você não, Tony… Você fica aqui ou sei lá, foge pra Colômbia… Mas comigo você não vai!

- CORLEONE, VOCÊ ME PAGA! VOCÊ FODE COMIGO, VOCÊ FODE COM O MELHOR!!!!!!!!!

– Montana, vou te fazer uma oferta que você não pode recusar… Fica caladinho, ou você volta pra Cuba! Ou melhor: eu vou te mandar pra Líbia ou pro Egito, dizem que a coisa lá ta mais feia do que na terra do Fidel…

- Não, não! EU FICO MICHAEL! Fidel tudo bem, mas o Oriente Médio já é demais até pra mim!

Aos cinéfilos, com amor

De todos os tipos de pessoas que existem no mundo – os chatos, os honestos, os gordos e os mal humorados – existe um pelo qual eu tenho um carinho especial: eu adoro aqueles que gostam de cinema. Não, não falo de quem tira dois ou três finais de semana por mês pra freqüentar uma sala e assistir o último blockbuster de sucesso. Eu gosto de quem gosta de cinema de verdade.

Eu gosto de quem respira cinema. Eu gosto de quem enxerga o mundo em frames, de quem vê pelas lentes. Um dia, tomam café com Jim Jamursch, enquanto esperam Tarantino contrata-los para a próxima carnificina. Na manhã seguinte, já não se lembrando de nada e jogam xadrez com Bergman enquanto esperam que passe uma chuva de sapos. Eles saúdam o passado glorioso, brindam as façanhas encontradas no futuro. Em frente um projetor ou uma tela plana, torcem pelo futuro emocionante. Podem ser lágrimas, podem ser gargalhadas. O importante é se emocionar a todo momento. Sem zoom, sem close. Ver detalhes que fogem aos desatentos, detalhes que fogem àqueles que ainda não aprenderam a amar assim.

Eu gosto de quem bebe cinema. Eu gosto de quem rouba um gole de Scarface, gosto de quem se embriaga com os Corleone. Gosto de quem canta na chuva, de quem olha o vizinho pela janela entreaberta. Gosto de quem tem curiosidade, como naqueles filmes em que o Al Pacino é detetive, gosto daquele suspense que só termina no final de Seven.

Eu gosto de quem come cinema. Gosto de quem pede Royale with Cheese, de quem coloca as mãos em sacos de grãos no mercado. Gosto de quem lembra da manteiga e do Marlon Brando, gosto de quem suspira pela Brigitte Bardot. Eu gosto de quem luta como um Jedi, gosto de quem canta como em Hair. Gosto de quem ama como Scarlett O’Hara, de quem sofre, como em Rain Man. Adoro quem sorri como Chaplin, é neurótico como o Woody, que é louco como o Nicholson ou trapaceia como o De Niro.

Me apaixono por aqueles que se apaixonam por duas, três horas de um longa. Me apaixono por aquelas frases clássicas decoradas, pela sensibilidade de um choro ou a felicidade de um riso. Me apaixono pelos gestos roubados de uma boa interpretação, me apaixono pela sinceridade da emoção de um filme bom, daqueles que fazem os olhos brilharem por dias, mesmo depois dos créditos já terem subido e a música, se esgotado. Eu amo quem gosta de cinema. Eu amo quem gosta de cinema, porque de tanto ver, quem gosta de cinema, aprende a sentir como ninguém mais consegue.