Torradas Tostadas

Escutava uma sonata qualquer enquanto planejava o assassinato. Não faria sentido proclamar nenhuma bela citação se o ódio corrompia seu interior por completo. Não restara nada. Como seria capaz de oscilar entre extremos tão rapidamente? Perguntas irritavam a pele pálida. Dedicou suas últimas três semanas articulando e rabiscando como seria o fim que alguém tão medíocre mereceria. Não merecia atenção muito menos uma morte cinematográfica. Mas isso de fato não incomodava. Só queria estabelecer, em algum momento, o máximo de sofrimento que pudesse.

Vingança. Escorria pelos poros, seu suor cheirava a revanche. Algum desconhecido se ofereceu para fazer o seu serviço. Mas onde o prazer de esconder as mãos sujas de sangue por trás dos casacos enquanto o metrô não chega ficaria? O que contava era o mérito de vencer a sua própria obsessão. À medida que os graves do compositor até então desconhecido se intensificavam, mais perto do plano perfeito chegava. Algumas vezes desafinava, e era difícil restabelecer o ritmo. Parecia impossível estancar um final como aquele. Quando ficassem cara a cara, seria então capaz de apunhalá-lo pelas costas ou simplesmente o silenciar com o estrondo de um tiro? Determinação não faltava. A coragem brilhava em seus olhos claros, avermelhados pelo choro intenso das noites passadas. As conseqüências já não importavam. O futuro não fazia diferença. Passaria mais de vinte anos em uma cela isolada, se a madrugada de quinta-feira sucedesse como planejado. Arranhar os seus discos preferidos, levar todo seu dinheiro e quebrar os vidros da casa não fora suficiente. Sua sede era de ainda mais. Os danos de outrora eram irreparáveis. Os que viriam também seriam. O esboço se concluía aos poucos. Faltavam poucas horas. Poucos minutos. Poucos segundos. Precisava daqueles segundos de glória como qualquer outro precisa de ar.

Caminhou pela neblina densa. As cópias das chaves já não mais serviam. Mas o lugar onde guardava as reservas não mudara. No silêncio, adentrava pelos ensaios de salas, até chegar ao quarto. Outro alguém já ocupava o seu lugar no canto esquerdo da cama. O trabalho seria dobrado. Mas a culpa, essa seria a mesma. A intrusa fora eliminada facilmente. Não sentiu nada, muito menos remorso. Chegou então o esperado, o planejado com tanta rispidez. Nove facadas. Quatro, no peito. Os gritos acordaram os vizinhos. As lágrimas borravam a maquiagem de três dias atrás. Ele ainda respirava. Um tiro desfigurava a face com a qual sonhara por tantas noites. O vermelho ensangüentado corria pelos lençóis brancos. Pareciam ter sido postos especialmente para a situação. Sabia que se renderia. Mas fez questão de tratar pessoalmente do leito de morte, sem derramar nenhuma gota de compaixão. Antes que a emergência chegasse, deixou uma nota avisando que nada disso foi por amor. Observou o seu crime primordial enquanto sacava do bolso algumas moedas. Seriam elas suficientes para pegar o metrô? Indiferente. Não havia mais com o que se preocupar. O transporte a partir de agora seria gratuito.

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posted by Nina R. in Contos and have Comments (9)

9 Responses to “”

  1. Caio Rudá diz:

    Vai uma crítica sincera. Mal escrito não está, com exceção de um “mas” por “mais”, provavelmente erro de digitação. No entanto, não surpreendeu o final. Não que todo final precise de surpresas, mas acho que foi muito direto ao ponto, um conto previsível.

    Destaque para a narrativa diferenciada, um meio fluxo de consciência. Porém, um conto muito pausado. A quase ausência de conjunções dá um efeito bacana, mas não pode ser a base um texto.

    ps: gostei da foto. a bela penelope cruz, em volver. até parece que foi ela quem usou essa face, hehe.

  2. Bianca diz:

    gostei do texto e a foto lembra muito uma cena minha, quando cortei os dedos da minha prima (sem querer) com uma faca dessas. ahaha

  3. Sinaldo diz:

    Como sempre, parabéns pela história e pelo blog…
    Adoro Penélope =D

    espero que goste do meu blog
    http://sinaldoluna.blogspot.com/

  4. GOSTEI E COMBINOU A IMAGEM DA PENELOPE!

  5. Fábio Zen diz:

    Discordo em gênero,número e grau do Caio Rudá,embora respeite a opinião dele.Acho um equivoco maior valorizar estrutura textual em detrimento a competencia e talento.Achei muito bom,instigante e sempre interessante tratar de momentos extremos de emoções,sempre dá um ótimo texto(claro que nas mãos de quem tem talento,que é o teu caso).Gosto mesmo dessas grandiloquencias,exageros inclusive gostaria que tu visitasse quande puder um blog onde eu e mais dois camaradas,todos influenciados por Tarantino,cultura pop e safadeza criamos um conto(um pouco espichado é verdade),mas que acho o resultado positivo.O link é
    http://totolunatico.blogspot.com/ .Te espero lá Nina.Abrç!

  6. Bom texto mais e sempre bom tentar manter a calma heh

  7. Ed Santos diz:

    Nina, esse texto está ótimo. Não se preocupe muito com essas questões estruturais. É verdade que todo trabalho precisa de aparas, e um segundo olhar sempre ajuda a evidenciar isso, mas o importante você já tem.

  8. Vivica diz:

    Eu gostei! Mesmo com o final previsível, me prendeu a atenção pois li até o final para ter certeza do que realmente ia acontecer.
    E repito o que o pessoal falou: a imagem da penelope fechou direitinho!

    Abs.

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