Torradas Tostadas

Café Anônimo

Duas ou três doses depois, a verdade começava a escorrer pelo canto esquerdo da boca seca. O líquido negro, tão forte quanto amargo, deslizava pelas rachaduras e se perdia em um caminho nunca desvendado, como um andarilho prestes a adentrar um labirinto interminável. Conversavam sobre quase tudo – contanto que não remetessem as feriadas mal curadas do passado, ou o fracasso do presente. Argumentavam sobre quem era melhor. Um preferia os Beatles, mas ela sempre gostou mais dos Stones. Tolkien não poderia ser considerado literatura, apesar de que ele nunca lera o suficiente para embasar-se em algo consistente. As pausas eram necessárias… Daí vinha os cigarros. O hiato do diálogo, e um sinal para que o próximo assunto viesse. Pedia mais dois cafés, um fósforo. Aquele lugar remetia a toda decadência que passavam. Os pés da mesa de plástico quebrados, a pintura da parede descascando. A televisão de 10 polegadas no alto, e duas telas que causariam desgosto a qualquer artista, se soubesse onde fora parar. A criança interrompia de tempos em tempos. Dava risadas de longe, e logo se aproximava para brincar com a menina-moça. Já era a quarta ou a quinta vez que iam ali, e continuavam como completamente corpos estranhos no ambiente. Eram sempre os mesmos que estavam lá. Não importava quantas vezes voltassem, porque aquilo não mudaria. Enquanto isso tentavam recordar os nomes dos filmes que viram, dos amores que sentiram, das dores que não impediram. Pagava a conta, mas nunca dividia os valores. Seguiam sem rumo certo, retornando à maçante mediocridade.

- Como você consegue ser assim em meio a tudo isso?
- Não sei. Eu simplesmente consigo.

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posted by Nina R. in Contos and have Comments (14)

14 Responses to “Café Anônimo”

  1. izabela :) diz:

    realmente, essa vai pra série “ninguém compreende”.

  2. Nathy D diz:

    Não gosto de café mas op texto ficou muitoo bom de verdade

  3. esdras diz:

    Adorei tudo: o texto, a estética do blog e vc q parece mto graciosa. Voltarei mais vezes.
    Abços!!!

  4. Fábio Zen diz:

    Vou voltar a bater na mesma tecla Nina,a linha criativa de que parte tuas construções textuais são muito,muito parecida com a minha.E os Stones são superiores aos Beatles.Abrç!

  5. um texto do cotidiano…gostei,,,esta de parabens,,,

  6. Ninguém diz:

    Realmente só eu mesmo para entender!! hehehe
    Enquanto lia, mi vi nas mil vezes que fui em cafés para bater papo, é bem parecido.
    Um café, ai vem o(s) cigarro(s), e mais cafés, e horas de conversa e sempre com essas mesmas pausas descritas.
    Ótimo texto!!

  7. Ninguém diz:

    ps.: Também prefiro Stones a Beatles.
    Também The Who

  8. Vinicius diz:

    Cigarros, café e papo-furado. É a vida vivida.

  9. Parabéns!!!… ótimo post!…

    PS: Eu tbm prefiro Stones…. hehehe

  10. Teu blog tem o layout mais legal da Web. Onde mais encontraria torradas e De Niro?

    Bom post… eu prefiro Beatles.

  11. Cada um é cada um, jamais conseguiria ser assim, meio frio.

  12. Querida amiga avassaladora… Na hora de devaneios e confusões saudosas com pitadas de arrependimento … prefiro um chop gelado a um café amargo.

  13. Edu diz:

    Odeio café..arghh!
    Mas o texto eu gostei…rs

    Passa lá e comenta tb:
    http://caopelado.blogspot.com/

  14. Eu só aguento os dias de trabalho sem graça, graças ao tanto de café sem açúcar que tomo. Mas acho que seus textos podem me ajudar a passar parte do tempo ocioso de mu ganha pão

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