A Verdadeira História da Cinderela

Em tempos longínquos, onde as pessoas alienadas pelo absolutismo de Maquiavel ainda se submetiam seus direitos a um rei, havia uma mocinha, muito loira e muito magra (do tipo que saí hoje em dia na Playboy) chamada Cinderela. Filha de um membro rico da corte, seu pai casou-se com uma imperatriz dos Países Baixos pelo título da nobreza, mas, por ser cassado por infidelidade ao Rei, teve que fugir para alguma ilha no Caribe. Cinderela, desde então, passou a morar com sua madrasta e suas duas filhas invejosas, que evidentemente morriam de ódio por não terem inventado a lipoaspiração ainda naquela época.

Em anos gloriosos, a madrasta má e suas pupilas tinham dois empregados cada. Mas inspiradas por Maria Antonietta, a prima rica da França, começaram a disseminar o capitalismo no sul da Europa, gastando grande parte de sua fortuna com sapatos e contraindo uma enorme divida com a bisavó da Coco Chanel. O maior temor da madrasta má era que a alta burguesia descobrisse que a família de peruas não pudesse nem arcar com um servo, e foi decidido com votos unânimes que a encarregada dos serviços domésticos seria a enteada querida.

Enquanto a high society não descobria do furo nos cartões de crédito, os convites para os grandes bailes continuavam a chegar. A demanda por novos vestidos era cada vez mais alta, contrapondo com a conta corrente das adoráveis irmãs. Bisavó Chanel já se recusava a trabalhar à prazo, e a única saída era contar com a ajuda de Cinderela para cortar alguns retalhos. Cinderela, que nunca havia freqüentado as baladas da corte, aproveitou uns panos e se presenteou com um vestido cor de rosa a lá Geisy Arruda para arrasar na noite. Mas obviamente, a madrasta e suas filhas invejaram o decote e impediram a pobre Cinderela de ir a festa, derramando pó de arroz e quebrando vários frascos de perfume, para que ela tivesse afazeres a noite inteira.

Barangas e com toneladas de maquiagem, as irmãs más seguiram para o baile funk. Cinderela, triste e desconsolada (e com o vestido já cheio de borra de café) se pôs a chorar sobre os baldes e os panos de chão. Mas não demorou para que as ratazanas e as baratas que Cinderela pacificamente permitia residir no quarto das irmãs se sensibilizassem com a causa e logo teceram um novo vestido para a amiga bondosa.

A vizinha gorda, que todos diziam ser macumbeira, ouviu o choro de Cinderela e também se propôs a ajudar. Depois de assinar alguns papéis, presenteou-a com um Porshe conversível laranja, e as ratazanas, mesmo não tendo carteira de direção, se ofereceram a levar a então bela dama para o tão sonhado baile. A única condição seria que a jovem retornasse a meia-noite, pois o aluguel do carro era caro, e a velhinha não poderia arcar.

Já na festa, todos os olhares se voltaram àquela até então desconhecida garota, que seduzia a todos no salão. A beleza e a simpatia de Cinderela chamaram atenção até mesmo do príncipe, que a tirou para dançar. Entre olhares apaixonados e sorrisos discretos, eles dançaram durante toda a noite todas as velocidades do Creu. Mas já era quase meia-noite, e a jovem Cinderela precisava voltar para sua realidade. Sem se despedir, saiu correndo e sem perceber, deixou cair o sapatinho de plástico. O príncipe, já apaixonado e boquiaberto com a garota e o seu rebolado, encontrou o acessório na escadaria, floodou a timeline do Twitter de todo o reino em busca daquela que havia roubado o seu coração.

Em todo o reino, os servos passavam experimentando o sapato em cada uma das moças que encontravam. Um dia, bateram à casa de Cinderela. As irmãs, desesperadas, pensaram em cortar o dedão para fora para que o sapato coubesse, mas nada adiantava para quem já nasceu com uma prancha de surf colada aos pés. Como sabiam o tamanho do pé, do busto e do quadril de Cinderela, não quiseram permitir que a meia-irmã experimentassem, pois já sabiam que se encaixaria perfeitamente. Cinderela teimou até que conseguiu que colocassem o sapato em seus pés. Mas a partir daí, não ocorreu o final feliz que todo mundo sempre esperou. O servo real viu na sola do sapato: o artefato era da China, importada da 25 de Março, e não da França, como o príncipe pensou. E a Cinderela, coitada, voltou para o manicômio, onde a sua madrasta era na verdade a sua psiquiatra, que finalmente diagnosticou, por não existirem Porshes alaranjados e nem ratazanas que tecem seda, que a sua paciente tinha uma esquizofrenia avançada, e que as duas enfermeiras encarregadas não dariam conta do caso.

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