Eu comprei uma caneta nova. Macia e da ponta fina, que deixaria minha letra um pouco mais bonita e meus rabiscos um pouco mais legíveis. Achei que uma caneta resolveria meus problemas: que as palavras então fluiriam mais fácil como antes, e que eu teria todo aquele gosto de abrir um caderninho a cada instante e despejar nele duas ou três frases que virariam textos algumas horas depois. Mas não aconteceu nada.
Eu também comprei um caderninho novo, umas duas ou três semanas atrás. Os antigos eram muito grandes ou já estavam muito cheios, e eu achei que uma capa dura e umas linhas vazias talvez me suplicassem por palavras e eu, amolecida pelas folhas amareladas em branco, piedosamente, escreveria. Mas não aconteceu nada. Ele só ficou largado dentro de uma bolsa, perdido com as chaves de casa e livros que eu nunca vou terminar de ler.
Eu até baixei aqueles programas de texto com o design bonito – porque é horrível e intimidante ficar encarando a tela do Word por horas – mas logo desisti e voltei pros papeis em branco que continuam sem serem riscadas e não há filme de terror pior do que o medo que eles fiquem assim pra sempre.
Não tem programa que resolva meus problemas, nem quem faça milagres e devolva a tal da inspiração. Mas há jeitos e jeitos. Tem as canetas os cadernos novos, a ilusão e – porque não – os textos curtos e sem graça, que afinal não dizem nada – mas pelo menos, até que enganam bem… Por enquanto.