Dias de sol

(para ouvir: you are my sunshine – bob dylan e johnny cash)

Sabe-se lá o quanto eu queria ver aquele sol. O dia já tinha descido, mas só queria olhar pra janela e ver aqueles raios cheios de vida penetrando meus olhos e queimando minhas retinas. Ele se parece com o sol. Não no sentido de ser brilhante – talvez até seja e eu não saiba -, mas de estar ali, óbvio, evidente, todos os dias, e mesmo assim, ser inalcançável. Mesmo escondido entre nuvens ou fumaças, continua radiante. Não sei se ilumina a manhã de todos ou só a minha, mas como o sol, queima com toda intensidade à minha alma, e sua luz sobre mim é tão forte que quase impede de enxergar. Mas é noite, e neste tal hemisfério o sol já se foi. Sabe-se lá onde ele está escondido enquanto a lua só me castiga com o frio e a solidão enquanto espero um dia ensolarado nesses tempos nublados.

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Aquele friozinho na barriga

Primeiro vi numa revista, e não demorou pra que aquela frase horrível pulasse em cima dos meus olhos também na internet.  “Traga aquele friozinho de volta”. É sério isso? Porque olha, eu sei que toda propaganda tem que ser chamativa, mas apelar pro friozinho é demais pra mim. E sim, eu também sei que o mundo – e as prateleiras – fica mais lindo, romântico e cor de rosa porque é dia dos namorados, mas né?
Vocês já devem ter visto, é propraganda de um perfume. Só sei que tem gente que passa a vida toda procurando esse tal frio ai, e acho – na verdade tenho quase certeza – que não é um cheiro forte  que vai trazê-lo. Sentir borboletas no estômago, amar, querer ou estar com alguém é tudo lindo igual nas milhares de propagandas que tão por ai (e tem umas que são mesmo muito legais). Mas entre gastar dinheiro com um perfume que te  “faz sentir friozinho” e gastar com qualquer outra coisa, compra uma coleção de selos ou uma caixa de chicletes que vem com tatuagem. Friozinho na barriga é só você tirar a camisa e sair na rua. É de graça e eficiência garantida.

Primeiro vi numa revista, e não demorou pra que aquela frase horrível pulasse em cima dos meus olhos também na internet.  “Traga aquele friozinho de volta”. É sério isso? Porque olha, eu sei que toda propaganda tem que ser chamativa, mas apelar pro friozinho é demais pra mim. E sim, eu também sei que o mundo – e as prateleiras – fica mais lindo, romântico e cor de rosa porque é dia dos namorados, mas né?

Vocês já devem ter visto, é propraganda de um perfume. Só sei que tem gente que passa a vida toda procurando esse tal frio ai, e acho – na verdade tenho quase certeza – que não é um cheiro forte  que vai trazê-lo. Sentir borboletas no estômago, amar, querer ou estar com alguém é tudo lindo igual nas milhares de propagandas que tão por ai (e tem umas que são mesmo muito legais). Mas entre gastar dinheiro com um perfume que te  “faz sentir friozinho” e gastar com qualquer outra coisa, compra uma coleção de selos ou uma caixa de chicletes que vem com tatuagem. Friozinho na barriga é só você tirar a camisa e sair na rua. É de graça e eficiência garantida.

Moon Dreams

(Para ouvir: Miles Davis)

Estava machucando. Crava a unha nas costas, joga sal nas feridas. Com os dentes, rasga a pele, rancava os pedaços, atiçando-os em um canto qualquer. O sangue jorra no peito, e lentamente, a carne vai perdendo a cor. Fica inapta. O corpo não se move enquanto os olhos o perseguem cruzando impaciente a sala vazia. Quando já sangrou até a alma, precisa de uma massagem cardíaca, um choque de 300 volts. E ele se desgastou tanto a sufocando com as duas mãos, que só percebeu que já havia perdido todas as forças quando já estava quase morrendo de arrependimento.  E enquanto a agulho arranhava um disco de um blues triste e qualquer, ela jazia sobre o lirismo de um trompete meio desafinado que continuaria a contar aquela mesma história, de novo, de novo, e de novo.

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Augusto

Nunca fui de acreditar em amor à primeira vista, mas eu me apaixonei por Augusto no primeiro momento em que o vi. Os cabelos tapavam os seus olhos, mas eu queria vê-lo de novo pela primeira vez todos os dias só pra continuar sentindo aquela trágica emoção de receber mil facadas no peito por segundo. Augusto estava com uma mulher. Embora eu não tenha tido tempo suficiente para achar adjetivos adequados para descrevê-la, sei que ela não o fazia feliz, e o sorriso do canto de sua boca me dizia isso – e mais tarde, me diria isso mais explicitamente ainda. A noite desceu e eu esqueci Augusto entre os outros amigos e ele logo foi embora, mas eu não estava bem – ou fora de mim – suficiente para segui-lo, embora o quisesse. Não lembrei dele por algum tempo. Sabe como é, a quantidade de pessoas que passam por minha vida todo dia não é facilmente mensurável. Mas ele tinha o sorriso mais bonito que eu já tinha visto desde que a miséria abateu permanentemente o meu cotidiano.

Meses depois, eu vi Augusto em frente uma loja de eletro-domésticos. Mal me lembrava de sua existência, mas minha paixão veio à tona quando os meus olhos cruzaram o caminho dos seus ainda como um par de desconhecidos. Segui meu caminho pensando nele, mas não consegui chegar a nenhum lugar.  Não estava em casa, tampouco sabia o meu rumo, mas seu gosto me agradava tanto antes mesmo de prová-lo.

Foi numa terça que decidi procurar Augusto. Minha vontade de vê-lo foi súbita. Não sabia nada, além de seu nome e de seu olhar, mas as coincidências nos puseram no mesmo lugar, acredite ou não. Augusto, no inicio, foi um amor. Inteligente, dócil e carinhoso. Sua expressão era tão amável que eu sonhava com ela todas as noites. Acordava com um sorriso no rosto. Ficava mais feliz ainda quando despertava ao seu lado. Ele sempre acordava mais cedo e dava uma volta no quarteirão. Me desesperava os dias que ele demorava demais, achava que ele não voltaria.   Por muitos dias, fomos felizes. Não daquelas felicidades clichês, que se vêem em filmes, ou que os poetas consagram nos sonetos. Tínhamos problemas, problemas sérios. Estávamos fodidos quando voltávamos à vida real. Mas quando a sua mão tocava a minha, faíscas pareciam brotar do ar, e soa sim clichê como nos filmes, mas tudo parecia estar bem. Sorríamos e voltávamos a nos amar.

Mas sabe o que dizem: a paixão é súbita, e só acontece uma vez. Foi assim como veio. Augusto partiu numa terça, assim como no dia em que chegou. Não sei se o destino ou as coincidências foram filhas da puta, porque acho que, de vez enquanto, eu merecia ser um pouco feliz. Augusto me deixou por uma vagabunda qualquer que conheceu na padaria da esquina enquanto comprava o meu pão. Gostava dele, de verdade, mas tudo bem, essas coisas acontecem. Fatalidades. A vida é cheia delas. Normal. Desde então, compro meu café da manhã pela noite. Não me importo com o pão velho e dormido, assim como as roupas que ainda estão amontoadas no chão. Mas ainda estou me segurando para não pegar tudo que Augusto deixou em minha casa e queimar, fazer uma macumba para que ele nunca mais sorrir como sorriu pra mim pra nenhuma outra mulher.

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Epifania

Manhã ordinária. Como em todas as outras, os segundos se arrastam pelo chão tal como as formigas marcham em direção ao buraco na parede que fica cada vez maior. Em questão de um minuto ou dois, o céu muda completamente. O vento dita o ritmo das nuvens que agora parecem maré em noite de lua cheia. Os pulmões estão cheios de nada. Esvaziam-se a cada sorriso torto para desconhecidos que  fazem a vida parecer ter algum sentido. Os olhos cruzam os fios da rede elétrica, cambaleiam no pouco trânsito, e enfim, se fecham.

O silencio conforta, mas é perturbador e a solidão talvez seja temporária. A escassez de fazer dói tanto quanto o excesso de pensar. E o tempo vai passando, mas tudo continua no mesmo lugar: nunca muda. Não é imutável, só não muda. Como um trem-bala com a porta emperrada, só passa. Escorre pelos dedos de uma mão fechada e cai pelo ralo antes que qualquer um perceba. Deixa rastros, como se fosse tinta branca: não faz muita diferença até que seca e é notável a sua presença.

Não há louvor nem cerimônia. Não há nada demais, só o de sempre. Mesmo assim, vêem-se novos detalhes nas janelas ou nas pontas dos dedos, e, se olhar de perto, até nas faces, sendo mutiladas pelo tempo. Seria o momento perfeito para uma idéia genial, uma revelação oculta e surpreendente, uma voz que ditasse um destino brilhante, mudasse uma vida. Mas tudo que se ouve é a merda de um casal de pombos acasalando em cima de sua cabeça.

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