Nunca fui de acreditar em amor à primeira vista, mas eu me apaixonei por Augusto no primeiro momento em que o vi. Os cabelos tapavam os seus olhos, mas eu queria vê-lo de novo pela primeira vez todos os dias só pra continuar sentindo aquela trágica emoção de receber mil facadas no peito por segundo. Augusto estava com uma mulher. Embora eu não tenha tido tempo suficiente para achar adjetivos adequados para descrevê-la, sei que ela não o fazia feliz, e o sorriso do canto de sua boca me dizia isso – e mais tarde, me diria isso mais explicitamente ainda. A noite desceu e eu esqueci Augusto entre os outros amigos e ele logo foi embora, mas eu não estava bem – ou fora de mim – suficiente para segui-lo, embora o quisesse. Não lembrei dele por algum tempo. Sabe como é, a quantidade de pessoas que passam por minha vida todo dia não é facilmente mensurável. Mas ele tinha o sorriso mais bonito que eu já tinha visto desde que a miséria abateu permanentemente o meu cotidiano.
Meses depois, eu vi Augusto em frente uma loja de eletro-domésticos. Mal me lembrava de sua existência, mas minha paixão veio à tona quando os meus olhos cruzaram o caminho dos seus ainda como um par de desconhecidos. Segui meu caminho pensando nele, mas não consegui chegar a nenhum lugar. Não estava em casa, tampouco sabia o meu rumo, mas seu gosto me agradava tanto antes mesmo de prová-lo.
Foi numa terça que decidi procurar Augusto. Minha vontade de vê-lo foi súbita. Não sabia nada, além de seu nome e de seu olhar, mas as coincidências nos puseram no mesmo lugar, acredite ou não. Augusto, no inicio, foi um amor. Inteligente, dócil e carinhoso. Sua expressão era tão amável que eu sonhava com ela todas as noites. Acordava com um sorriso no rosto. Ficava mais feliz ainda quando despertava ao seu lado. Ele sempre acordava mais cedo e dava uma volta no quarteirão. Me desesperava os dias que ele demorava demais, achava que ele não voltaria. Por muitos dias, fomos felizes. Não daquelas felicidades clichês, que se vêem em filmes, ou que os poetas consagram nos sonetos. Tínhamos problemas, problemas sérios. Estávamos fodidos quando voltávamos à vida real. Mas quando a sua mão tocava a minha, faíscas pareciam brotar do ar, e soa sim clichê como nos filmes, mas tudo parecia estar bem. Sorríamos e voltávamos a nos amar.
Mas sabe o que dizem: a paixão é súbita, e só acontece uma vez. Foi assim como veio. Augusto partiu numa terça, assim como no dia em que chegou. Não sei se o destino ou as coincidências foram filhas da puta, porque acho que, de vez enquanto, eu merecia ser um pouco feliz. Augusto me deixou por uma vagabunda qualquer que conheceu na padaria da esquina enquanto comprava o meu pão. Gostava dele, de verdade, mas tudo bem, essas coisas acontecem. Fatalidades. A vida é cheia delas. Normal. Desde então, compro meu café da manhã pela noite. Não me importo com o pão velho e dormido, assim como as roupas que ainda estão amontoadas no chão. Mas ainda estou me segurando para não pegar tudo que Augusto deixou em minha casa e queimar, fazer uma macumba para que ele nunca mais sorrir como sorriu pra mim pra nenhuma outra mulher.