O pior do amor são os presentes

É normal nós nos apaixonarmos. Todo dia. E se tivermos sorte, também se apaixonam pela gente. Claro, o amor é lindo e ótimo e sincero. Pena que os presentes não são tanto assim.

Primeiro vem as flores. Bonitas, coloridas e extravagantes, ai a moça antes de dormir sempre as cheira e lembra-se do perfume do seu amado. Mal sabe que o amor é mesmo igual àquelas flores: estão lindas agora, mas não demora pra apodrecer ou morrer. Depois são os chocolates. Uma delicia, todo mundo gosta de chocolate. Deveriam vir com um cartão dizendo: “Você vai comer essa caixa de chocolates sozinha, vai engordar. Sua bunda vai crescer, mas o meu amor não. Beijinhos”. Você adora bichinhos de pelúcia, então o cara te dá um ursinho e você passa a o chamar pelo nome do seu amor, e as semelhanças não param por ai, porque logo você descobre que ele dorme ou come mais que um de verdade.

Vem o Dia dos Namorados: as vitrines se entopem de coisinhas fofas. Blusinha de “EU coração meu NAMORADO” (que vai valer pros três próximos) e aqueles chaveirinhos lindos que dividem um coração em dois: você pode ter um pedaço dele, mas nunca ele todo. Acaba que com o passar dos anos, você tem uma pilha de metades que não se encaixam.

O melhor mesmo é esquecer as flores, as fofuras e o chocolate: um sapato ou uma camisa de time de futebol vai fazer qualquer um te amar MUITO mais. Mesmo.

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Das cartas que não mandei, dos bilhetes que não escrevi

(Para ouvir lendo/ler ouvindo: Paul McCartney & The Wings – The Note you never wrote)

Dia desses me surpreendi com a quantidade de papéis que estão em minhas gavetas. Dobrados, rasgados, velhos ou picotados. Talvez haja papel suficiente para uma história em quadrinhos ou um daqueles livrinhos de bolso. E nesses papéis tem de tudo. Rascunhos que terminaram ignorados, desenhos mal feitos, e cartas. Muitas cartas. Nada muito formal, sem cabeçalho e sem roda pé. Achei cartas de três, cinco anos atrás. E mesmo sendo muito diferentes, todas elas tinham algo em comum: nenhuma delas pertencia a mim. Sim, eu escrevi todas elas, mas nenhuma era, de fato, minha. Eram dos amigos, ora tão próximos e que hoje já nem sei por onde andam, dos amores de “infância”, dos amores que nunca se conformaram… É um pedaço de vida (e um pedaço bem relevante, considerando o tempo) escrita em páginas, a lápis ou a sentimentos. Eu adoro escrever – por mais difícil ou doloroso que às vezes seja. Alguns próximos, que convivem a mais tempo comigo sabem, os meus “foi mal”, “te amo e to aqui com você” geralmente vão em um pedaço de papel.

Pelo menos na prática, eles vão. Em algum lugar, alguém ainda tem guardado em um pedacinho de pagina aquilo que eu não consegui dizer. Talvez hoje eu não dissesse mais aquilo, mas minhas palavras estão ali, impressas em minhas próprias letras, e ninguém ousaria nega-las, não posso tomá-las de volta. Elas são fragmentos da minha vida – e da vida de mais alguém. São fragmentos de alguém que talvez nem saiba desses fragmentos, como uma parte de arquivo que o disco esqueceu de processar, mas elas estão lá, escondidas em um cubo de madeira. Lá, no fundo da gaveta, no fundo das memórias.

Claro que nem tudo está ali. Tem coisa que não foi escrita, tem coisa que não foi pensada, muito menos sentida – e deveria ser. Mas não foi. Aquilo pode até ser quase nada, mas é um quase nada que poderia – quem sabe, fazer algo estar bem diferente: nem tudo que era preciso foi dito. Esqueci e deixei passar muitos “obrigada” e “me desculpa”, “eu me importo com você”. Mas o que importa mesmo é que tudo foi de alguma maneira, sentido.  E quando a gente sente, só a gente sabe o que sente. E quando quero dizer o que sinto, eu escrevo. Feio, mal feito, ou pesado. E eu sinto que deveria escrever mais e acumular menos peso e mais papéis. Talvez assim, minhas gavetas (e minha cabeça) não estejam mais assim, tão cheias.

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