Como em um sopro de vento, daqueles ligeiros que vem no outono, todas as emoções contra as quais lutara resolveram explodir. Sua vida passava diante seus olhos, mas nenhuma das cenas soavam familiar: viu apenas o que acreditava que ainda viria. Relutou contra o que até então achava não existir. Inutilmente, viu todos seus esforços sendo em vão. Tentou se agarrar a um dos pedaços que voavam em combustão, mas seu corpo nu atravessava cada um deles, como se fossem só fantasmas, espectros. Naquele momento, percebeu que nada que acreditava ter era concreto. Tudo que tinha era apenas palavras. Palavras que um dia foram palpáveis, mas que agora, eram só promessas, especulações. Nunca seria o suficiente. E sua existência era isso. Letras ordenadas, sorrisos tolos, olhares fantasiosos sem nenhum sentido. Não era o bastante, nunca seriam. Seus pensamentos flutuavam ao seu redor e pesavam, mas entre todos aqueles sonhos, não encontrou nada onde pudesse deitar a cabeça. Cansado de tudo aquilo, deitou-se em uma superfície qualquer, dura e fria, e ali mesmo adormeceu. Entorpecido pela subjetividade que havia se tornado, sorriu. Sonhou com o que nunca teve – e provavelmente nunca teria-, mas que mais uma vez, parecia ser mesmo real.
Monthly Archives: Março 2011
Ervas Daninhas
Uma desconhecida espécie florescia em sua janela. É de se estranhar, pois o jardim secou e morreu anos atrás. Dia após dia, cultivou-a como se fosse algo raro. Consultou especialistas, comprou dos melhores adubos, pesquisou os melhores horários para regar e coloca-la no sol. Algo assim era novidade. Todos queriam ver e tocar o que quer que aquilo fosse. Logo se formou um aglomerado de curiosos em frente à janela. Surgiram os primeiros boatos. Rumores que havia vindo da África, que seria uma espécie em extinção ou talvez fosse mesmo pra contrabando. Logo que começou a crescer, percebeu-se que não tinha um formato bonito tampouco exalava um perfume agradável, mas foi mantida no mesmo lugar. Vieram os ambientalistas e os cientistas experimentais. Quiseram levá-la. Não sabiam o quão perigosa a espécie poderia ser. Entretanto, sua partida não foi permitida, era considerada um presente ou até um sinal. Uma noite de quinta, escutou barulhos. Tentaram roubar raridade. Cortaram o seu primeiro broto, exigiram um resgate milionário o qual não poderia arcar. Recorreu à sociedade protetora vegetal e a Policia Florestal. Ninguém dispôs ajuda. Levou meses para que surgisse um outro broto. Desta vez, cuidadosamente, colocou-a em um vaso e levou para onde quer que fosse, como se carregasse uma criança. Veio a primeira flor. Era feia, pareceu já nasceu morta, mas ainda assim foi recebida com enorme euforia. Continuava a crescer e a nova planta tomava cada vez mais espaço. Seus galhos invadiam o pequeno quarto. Foi levada para dentro de casa para evitar que as frágeis raízes se quebrassem. Quase feito um santuário, foi cuidadosamente colocada na escrivaninha, ao lado da cama. Falavam que aquilo tudo era um exagero, consideravam uma obsessão. Não se importou. Os galhos continuavam a crescer, e desta vez, ao invés de flores mortas, passaram a nascer espinhos. Já não saia mais de casa. Dedicava seus dias a poda e regava religiosamente sua única companhia. Os galhos cresciam. Cresciam durante a noite, avançavam no espaço. Cresciam enquanto dormia, e enlaçavam o seu pescoço, presenteando-a não com um colar de pérolas, mas com um colar de espinhos. Abraçaram suas entranhas de uma maneira tão forte, que não foi capaz de escapar. Sufocada, era tão frágil quanto às primeiras folhas que brotavam a sua janela. Até relutou, mas apenas balançava os pés, logo feridos e imóveis. Não acordou na manhã seguinte. E nem em uma outra manhã qualquer, embora os galhos, os espinhos e as flores que já nasciam mortas continuassem a se espalhar.
O Encontro dos Pacinos
Havia uns sete, provavelmente oitos homens ao redor da mesa. O lugar era discreto, e apesar das mulheres presentes, eram eles quem mais chamavam atenção. Mudavam o jeito de se vestir e o sotaque, mas eram todos muito parecidos, talvez fossem até irmãos. Na ponta da mesa, todos que chegavam, em um ato de respeito, beijavam a mão daquele que ora ou outra, comentava com um dos colegas de bar sobre o quão perigoso é ser um homem honesto.
- Mas cara, não tenho esse problema. Eu sou Tony Montana. Se você fode comigo, você ta fodendo com o melhor. Se quiser, posso te dar umas dicas de negocio, que cara, os Estados Unidos, a Sicília e o mundo vão ser pequenos pra você.
- Tony, fico muito honrado com a sua proposta, mas estou tentando manter a família Corleone completamente legal. Eu prometi a minha esposa Kay alguns anos atrás.
- Ei Michael, não dê ouvido a ele. Sou advogado, e acredite: você não vai querer sujar as suas mãos. O Tony é louco, megalomaníaco. E a vaidade dele… Ah! Vaidade é definitivamente o meu pecado favorito.
- É… Já me alertaram da fama do Montana, mas ele me traz uns bons charutos cubanos. É como meu pai dizia, mantenha seus amigos perto, e os seus inimigos mais ainda… Mas quem é você?
- Você conhece Rolling Stones? Please allow me to introduce myself…
- Não, não é bem da minha época…
- Então no caso, sou John Milton. A mão na saia da Monalisa. Eu sou uma surpresa Michael, eles não me vêem chegando.
- Com licença, você é o Don? – Diz um homem mais simples do que os outros, roupa branca, cigarro na boca, nervoso.
Michael acena com um sorriso e confirma com a cabeça.
- Pode me chamar de Michael.
- Don, eu sou o Sonny e preciso muito de um favor seu. É meio constrangedor pedir isto, mas… Eu já tentei o SUS, assaltos a banco…
- Assaltos?
- É, eu roubei um banco porque lá tinha dinheiro… Eu não sei a quem mais recorrer.
- Não envolve matar ninguém, certo? Porque eu estou farto destes negócios.
- Não, não. Eu preciso de dinheiro Don… Quer dizer, Michael. Eu preciso de muito dinheiro. Meu amigo Leon precisa de ajuda. Bem, não conte pra ninguém, mas ele é meu amante, e… Queremos que ele troque de sexo. Olha só como ele é.
Michael se surpreende a pegar a foto.
- Como ele se chama mesmo?
- Leon.
- Tem certeza que é Leon?
- Sim, absoluta. Algum problema?
- Não, ele só me lembra alguém que conheci. Meu irmão Fredo… Fredo partiu meu coração… – E por alguns instantes, Michael para, elevando a mão ao rosto, eventualmente passando-o no cabelo. – Fredo partiu meu coração. Espero que o Leon não parta o seu. Passe no meu escritório na semana, Sony, certo?
Sony, grato, abraça o Don e, como de costume, vai beijar-lhe a bochecha, quando é surpreendido por uma negação com a cabeça, indicando-lhe a mão.
- Melhor não arriscar.
E entre uma e outra taça de vinho, outros homens, também parecidos com os outros, cochicham entre si.
- Ah, as pessoas são mesmo complicadas. Quando precisei de uma mulher, tive que a inventar, elas devem estar em extinção, por isso os caras querem mudar.
- Ah, cale-se! Quem é você, Viktor Taransky? Você não sabe nada de mulheres! Você é um produtor de cinema falido que não conseguiu nem mesmo ficar com a sua própria esposa! Mas eu também não entendo esses caras… Olhe este lugar… Mulheres! O que você pode dizer delas? Quem as inventou? Deus deve ser mesmo um gênio!
- Estou farto do seu mau humor, Frank. Posso até ser um produtor falido, mas fui o único que quis fazer um filme sobre você. Mas quer saber? Eu desisto. Você não vale o meu esforço. Eu estou indo, e diga ao seu amiguinho Robin que ele também está demitido. Não gostei mesmo da atuação dele com o George Clooney em Batman.
- Vá brincar com o seu computador, Taransky! Vá com Deus, e não volte mais!
- HAHAHA, Frank, deixe-me te dar umas informações sobre Deus: Deus gosta de assistir. Ele é um pregador de peças, pense nisso. Ele dá aos homens o instinto. Ele dá aos homens esse presente extraordinário, e então, por pura diversão, ele estabelece as regras ao contrário: olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula. HAHA E enquanto você está indo de passo em passo, o que ele faz? Ele está rindo de você! Deus é um sádico, e isso vale a pena? NUNCA!
- Ah, Milton, você e seu discurso satânico, você pode até ter razão, mas isto cansa, sabia? Agora, se vocês me dão licença, tem uma porção delas loucas para dançar um tango argentino e apreciar uma boa comida, e é exatamente o que eu irei fazer. Mas… QUE MERDA! Quem coloca essas mesas no caminho da pista? Quero falar com o gerente dessa pocilga, além do bife ser péssimo, ainda tenho que esbarrar com essas malditas cadeiras de segunda mão!
- Pois bem, o gerente sou eu.
- Eu? EU QUEM? Eu não sei onde você está e nem sei QUEM VOCÊ É!!! Não sei se você percebeu, MAS EU NÃO ENXERGO!!!
- Acalme-se, Coronel Frank Slade… Sou o gerente e dono do El Paraiso, Carlito Brigante, e honestamente, estou tentando me manter fora de confusão.
- Acalme-se??? Não se consegue mais um lugar para tomar um vinho tinto e dançar com uma bela mulher mais sossegadamente. Isso é um ultraje! Bons tempos eram o do Babylon Club em Miami, mas o merdinha do Tony tinha que estragar tudo de novo…
- Ei, Frank, estou aqui e escutei isso! E El Paraíso pra mim era um furgão fodido que eu trabalhei quando cheguei de Cuba lavando uns pratos… Também não gosto daqui. Brigante, faça-me um favor e dê-me esse lugar e em menos de três meses você estará milionário!
- Montana, acho que não. Sei que você entende de clubes e restaurantes, mas o seu negócio não acabou muito bem, lembra? E favores… Favores vão te matar mais rápido do que uma bala.
- Foda-se, eu sou Tony Montana, foda-se você e seus negócios de merda! O mundo é meu!
Quarenta minutos e toda a história de como Montana dominou Miami depois, todos estavam já estavam exaustos de tanta gabação e das correntes de ouro que ele continuava a mostrar quando surgiu um novo assunto em um dos cantos da mesa.
- Mas Michael, você era um homem tão resguardado, serviu na guerra como eu, como foi se envolver na Máfia?
- Ah, Frank, é complicado. São os negócios da família, e não havia mais em quem confiar. Meu pai estava doente, o Sonny foi baleado… Tive que matar Sollozo com minhas próprias mãos, e depois, foi ficando cada vez mais difícil sair do negócio…
- Mas qual é exatamente o tipo de negócio, Michael? As drogas hoje dão um bom lucro… Tem prostituição?
- Não, não. Nada disso. Dia desses fiz negócio com um tal de Walter Abrams, apostas de jogos, coisas assim. Ele me soou meio ambicioso, daqueles que fazem tudo por dinheiro, e até me senti meio culpado por estar investindo nesses jogos de azar…
- Ah, Michael, vamos lá… Não se sinta culpado. A culpa é um saco de tijolos, tudo que você tem que fazer é tirá-lo das costas!
- Falar é fácil, John Milton! Ninguém com a mente sã nega que o século XX foi todo seu. Sejamos francos, o que é meu império perto do seu? Ok, os Corleone dominaram Nova York, Little Italy… A bolsa de valores, a China, a Europa… Isto tudo é seu!
- Sim, é verdade. Mas é o que eu te digo… Liberdade, baby. Liberdade, nunca precisar dizer que sente muito ou que se arrepende.
- Mas para você é fácil. Eu prometi a Kay…
- Ah, claro que você prometeu a Kay, Michael! Mas e daí?
- Eu a amo!
- Ah, foda-se o amor. O amor é superestimado. Quimicamente, não é diferente do que comer uma barra de chocolate.
- Você não entende John…
- Não enche John. É quem ele é, é o que ele é. Certo ou errado, você não pode mudar isso.
- Ah, claro, Carlito. E o que você entende disso? NADA! Você passou o que? Os últimos dez anos na cadeia?
- Sim, claro, passei os últimos dez anos na cadeia, porque eu te liguei e pedi que você me mandasse um advogado decente…
- Olha, eu tentei… O Kevin Lomax iria te representar, mas não é culpa minha que o babaca estorou os próprios miolos!
Os focos de conflito na mesa começavam a ficar mais evidentes. Alguns já iam partindo, o timbre da discussão ficava mais alto, e o nível, cada vez mais baixo. Perto do clube já fechar e todos que restaram partirem, chega um último homem, que aparentava ter interesses diferentes dos demais.
- Boa Noite, sou o detetive Will Dormer, estou procurando o Tony Montana…
– EI, você não é aquele policial que matou o próprio parceiro no Alasca? Eu não gosto de policiais, muito menos de policiais corruptos… Diga olá para o meu amiguinho!!!
- Ah, Michael, até quando o Tony vai achar que metralhadoras são brinquedos?
- Eu não sei… Mas é melhor pedirmos a conta e partirmos o mais rápido possível, porque ouvi dizer que quem vai assumir o caso é o Vicent Hanna… E o Robert De Niro me alertou que eu não quero mexer com ele… Vamos Milton, eu tenho uma casa na Sicília , te contrato como meu consigliere e posso te proteger… Mas você não, Tony… Você fica aqui ou sei lá, foge pra Colômbia… Mas comigo você não vai!
- CORLEONE, VOCÊ ME PAGA! VOCÊ FODE COMIGO, VOCÊ FODE COM O MELHOR!!!!!!!!!
– Montana, vou te fazer uma oferta que você não pode recusar… Fica caladinho, ou você volta pra Cuba! Ou melhor: eu vou te mandar pra Líbia ou pro Egito, dizem que a coisa lá ta mais feia do que na terra do Fidel…
- Não, não! EU FICO MICHAEL! Fidel tudo bem, mas o Oriente Médio já é demais até pra mim!
Os atendentes de telemarketing de Azkban
Estavam certo quando disseram que o inferno são os outros, só esqueceram de especificar: o inferno são os operadores de telemarketing. Depois que fiz 18 anos, eles me descobriram e uma luzinha no número do meu telefone começou a piscar constantemente para todas as empresas que executam essa praga, e desde então, não tenho mais paz. E o pior de tudo é pensar que esta tortura está apenas começando. Quando a voz gentilmente insuportável vem acompanhada do sotaque paulista e já pergunta “A SENHORA NINA ESTÁ?” é como um dementador de Azkban ultrapassando a corrente elétrica e sugando minha alma pelo telefone. A Senhora está no livro de José de Alencar, e não na minha casa. Oferecem cartões de crédito, revistas, jornais, viagens, (e até homens maravilhosos), e não basta dizer que você não está interessado: uma oferta imperdível genial a melhor dos últimos tempos antes do apocalipse vai pular como um pop-up com gifs animados de “parabéns, você é o nosso milésimo visitante!” do outro lado da linha. As horas escolhidas para as abençoadas ligações são sempre as melhores: há boatos que os nossos queridos operadores de telemarketing mandaram secretamente implantar chips que os dizem exatamente a hora que estamos dormindo ou almoçando, e voi-lá! O telefone toca insistidamente até que uma boa alma – que ainda não aprendeu o truque do “Nina está viajando” (já fui pra Europa e Estados Unidos, meu próximo destino é a Polônia)-, clame as palavras mais temidas do dia: telefone pra você. E ainda digo mais: se Hitler tivesse usado a mesma estratégia de invasão que eles usam, viveríamos hoje no Terceiro Reich. Além de saberem o nome completo dos seus irmãos, primos e avós (e os três primeiros dígitos do CPF de cada um deles), magicamente, também descobrem o seu celular e e-mails. E quando isso acontece, não há mais paz. Mais da metade dos SMS são de promoções mágicas, e ao abrir a caixa de entrada com 256 mensagens não lidas, 214 são spams de um individuo desconhecido oferecendo uma assinatura com um mega desconto e brindes geniais. E sendo uma grande surpresa (ou uma enorme trollada), quando precisamos falar com qualquer operador para cancelar ou pedir manutenção em qualquer serviço, o tempo livre que eles têm para fazer as tão adoráveis ligações, desaparece, evapora. São horas e horas para conseguir qualquer coisa no telefone escutando alguma versão fajuta de Fur Elise, enquanto Beethoven se revira no túmulo. Não encontrei uma solução efetiva para me livrar das ligações que concretizam o telefone como a invenção mais diabólica do mundo. Mas enquanto isto, tenho cada vez que Dementadores não passam de atendentes de telemarketing vestidos de preto que não iram sossegar até conseguirem minha pura alma. Só espero que o Expeto Patronum funcione pelo telefone.
FAÇA O CARTÃO DE CRÉDITO OU DIGA ADEUS A SUA ALMA!
Ps.: Eric de Carvalho, se um dia eu descobrir seu telefone, você está fodido.