- Precisamos de ajuda urgentemente. Estamos vivos por um fio, respiramos por um mísero buraco, não podemos mais deixar que isso aconteça. Temos que fazer algo, um plano de ação imediata.
- Eu já liguei pro Recursos Humanos e isso que ela está fazendo com a gente não é justo mesmo.
- Ligar? Eu nem sinal tenho nesse tijolo que me deram. Prometeram-me um Iphone 4 e um carro novo se eu fosse considerado pelo menos razoável.
- Carro? Eu me contento com um almoço todo dia, não sou alimentado há uns quatro, cinco dias.
- Aqui é escuro e apertado. Eu não agüento mais. Temos que dar um jeito de sair.
- Eu sei! Nós não costumávamos ficar tanto tempo presos assim.
- Estamos quase morrendo sufocados. Não tem outra solução, gente só sai dessa se ela deixar.
- O que será que aconteceu pra ela estar assim? Tempos de glória aqueles que éramos tratados bem, recebidos com êxtase e euforia. Esse lugar era quase um hotel cinco estrelas, e nem tínhamos tempo de aproveitar. Mal chegávamos e já íamos embora.
- É verdade, aqui costumava ser um lugar melhor, meus parentes diziam que tinham até quartos de luxo, e nós ficamos nesse buraco negro. Eu já estou aqui há semanas e nem sinal de quando eu vou ser escolhido, posto pra fora.
- Semanas? Você não sabe o que é demora. Espero há quase um ano pra sair. Teve uma época que até consegui colocar minhas perninhas pra fora, mas ela se arrependeu e apagou tudo. Deve ter me achado muito fraco, não entendo essa moça.
- Precisamos de um plano de resgate, não podemos mais viver nessa miséria, nessa escassez… Honestamente, eu preferia estar na Etiópia.
- É isso que eu não entendo. Restam tão poucos de nós, estamos praticamente extintos, e nem assim recebemos um mínimo de valor? Ah, como são difíceis esses seres humanos…
- É verdade, mas eu não tenho nenhuma idéia. Esse calor me impede de raciocinar, não funciono muito bem sob pressão.
- Podíamos fazer uma greve.
- Não, é muito arriscado. Vai que ela gosta? Vai ser um alivio se pararmos de perturbá-la.
- Podíamos soltar umas bombas nos corredores. Se o pessoal dos Sonhos e Desejos nos apoiarem, formamos até um exército, ouvi falar que eles também não estão muito satisfeitos com o tratamento lá.
- Pois é! Acho isso um absurdo. Estamos aqui exilados nesse calabouço e me disseram que tem uns quaisqueres vagabundos que é um entra e sai toda hora na suíte presidencial. Este lugar costumava ter regras!
- É, estamos sendo muito desprezados, mas acho que as bombas não é uma boa idéia. Ouvi o pessoal da Informação comentando que esses conflitos armados estão dando a maior confusão no Egito, e se nossa situação piorar, estamos fodidos.
- Poderíamos até tentar uma ação na Suprema Corte, dizem que há uma nova cláusula de maus tratos que paga uma boa indenização, dava até pra ganharmos milhões, mas acho que têm vários processos em nossa frente, até conseguirmos algo, estaremos dados como mortos…
- Já sei! Enquanto ela não nos colocar em um papel ou na tela do computador não a deixaremos dormir.
- Idéia brilhante! Podemos gritar, derrubar as coisas dela, puxar o cobertor e tirar os seus DVDs da ordem alfabética.
- Não, bagunçar os DVDs é golpe baixo, ela vai ficar nervosíssima e vai nos deixar apodrecer aqui.
- Como essa garota é complicada. Devemos tomar muito cuidado, me contaram que ela ganhou um sabre de luz.
- Esse pessoal desequilibrado deveria ser proibido de andar armado.
- Pois então vamos ficar conversando bem alto a noite inteira, todos os setores já encerraram atividade por hoje. Talvez ela nos ouça ou perceba que a gente ainda existe.
- Ela vai ficar incomodada e só pararemos quando formos atendidos. Nós queremos ser bem utilizados, se não formos, vamos voltar para perturbá-la ainda mais.
- Moça, por favor… Escreva pelo menos um pouquinho… Eu sofro de claustrofobia, e não agüento mais ficar aqui!