O dia que desisti do cinema

A guerra foi declarada anos atrás. Jovem e ingênua militante lutando por uma causa perdida antes que fosse decretado o início. Parece a história de algum esquerdista na ditadura militar, mas não. É mais uma aventura de quem ainda insiste em ver filmes – ou ao menos tentar – nos dias de hoje.
Não é segredo que seriam necessários meses de reabilitação para me afastar das salas de cinema. Mas também não é difícil de ver o quanto eu já passei raiva por conta deste tal vício. Mas preciso admitir que fica cada dia mais complicado de se manter uma adepta da tal religião cinéfila. Sempre fui fiel e estive nos horários mais estratégicos para assistir os filmes que mais me interessavam. E é mesmo como um ritual sagrado: escolher cautelosamente o próximo filme, checar sempre as estréias na madrugada de quinta para sexta e pegar as poltronas mais privilegiadas de cada sessão. Houve até aquela época que se era uma criminosa reconhecida: as atendentes davam bom dia e os seguranças não pediam mais a identidade. Sempre foi como uma guerra fria. Perdi as contas de quantos filmes anunciados não chegaram na data certa, dos rolos que estragavam no clímax ou das sessões canceladas. Era incomodo e irritava, mas era contornável por um bom enredo ou uma boa atuação.
Mas ativaram uma arma letal recentemente. Parece que agora, automaticamente, para ver algum filme, você precisa passar algum aborrecimento. Pode ser a lerdeza da fila ou uma projeção sem foco: é precedente necessário de uma ida ao cinema o sentimento de raiva. E por raiva, não se inclui esperar semanas (meses, em alguns casos) que a ”saga” dos vampiros brilhantes saiam das duzentas salas que o exibiram por duzentas semanas para dar lugar a um outro filme razoavelmente interessante. Raiva, no conceito das distribuidoras e das salas de cinema, deve significar fazerem pouquíssimas cópias especificamente do filme que nos interessa e guardá-lo na gaveta por um bom tempo, ou escolher os piores horários possíveis para exibi-los.
Quando a sorte resolve ser generosa e algo ”bom” entra em cartaz no lugar de algum filme da Xuxa – devemos agradecê-la por não ter feito nada esse verão -, começa uma outra novela. É, porque não basta a das seis, das sete e das oito: conseguir assistir bem um filme no cinema tem sido um verdadeiro drama. Eu não tinha visto nada no cinema ainda neste ano. Depois de esperar umas duas ou três semanas por algo que parecesse bom, resolvi arriscar em um diretor espanhol. E já disse: ir ao cinema é um ritual sagrado, certo? Talvez não tenham entendido isso. Entrei na sala e fiquei tão surpresa quanto se o Robert De Niro tivesse me convidado para ver todos os filmes de sua carreira em um estúdio particular. Estava tocando MÚSICA na sala de cinema. Pode não parecer errado por serem dois elementos que se casam bem. Duas palavras: flauta e saxofone. Cinco então: Raul Seixas e Beatles. Saí de casa para assistir um suspense, terminei a tarde em uma sala onde estava tocando Cindy Lauper. Ok, é mesmo exigir muito que todos acompanhem a atmosfera de Os Sonhadores para cada sessão, mas “Girls just wanna have fun” é demais pra qualquer um. Aquele clima de pipoca – e em breve chego nesse ponto – e cinema? Não, é o clima dos anos oitenta.
Os mais puritanos já ficariam horrorizados, e os modernos, não acham isso nada demais. Até ai é chato sim, mas pode até ser compreensível para quem tem um bom humor. O filme começa. Uma hora, o foco está no rosto dos personagens e outra, na legenda. A luz da cabine de projeção foi esquecida ligada. Não basta as músicas-lixo-pop-grudentas nos perseguirem em todos ambientes: elas também têm que ser o toque do celular de alguém que está ali. E esse alguém tem que atender no meio da sessão ou falar alto sobre sua paixão platônica, a avó doente ou a amiga de infância com quem está ao lado. As luzes dos celulares, as conversas paralelas e as pessoas sugando gás carbônico com um canhão dentro de uma lata? Bobagem. Ainda tem que enfiar a mão no saco e fazer qualquer barulho parecer um terremoto ou um abalo sísmico, incapacitando até o mais aguçado ouvido a prestar atenção na trilha sonora original indicada ao Oscar. Lanternas – sim, eu já vi LANTERNAS de celular no cinema -, pessoas conversando como se estivessem na fila do banco e pipocas que assassinam a atenção e concentração no filme podem não ser suficientes para tirar qualquer um do sério, mas me tiram.
E foi o último suspiro – ou a última gota de qualquer bebida gaseificada. Por mais que eu veja um bom filme – ou pelo menos um ator bonitinho – não vale mais a pena desgastar tanto a paciência de alguém. É, também acho que seja um desrespeito não só com quem tá lá, querendo ver algo interessante e com quem passou meses trabalhando para que aquilo estivesse vivo naquela tela – mas você já tentou explicar isto para menininhas gritando ou os moleques com suas latas de refrigerante voadoras? A única saída – aquele letreiro luminoso de emergência – é ter uma sala com poltronas acolchoadas de couro vermelhas em minha própria casa. Mas enquanto não ganho na loteria – ou arranjo um marido milionário -, é bom economizar o preço do ingresso e o desgaste psicológico para montar esta minha própria sala. Porque entre um projecionista com Parkison, gente mal educada e passar raiva à toa, o melhor é comprar uma boa TV, esperar o dvd e ver o Ryan Reynolds no conforto de meu sofá. E quanto a mim, vai ser um grande sacrifício, mas não volto ao cinema até que façam uma reeducação cinematográfica. Ou pelo menos, até que o último filme do Woody Allen finalmente entre em cartaz por aqui.

Peço que me desculpe
Por não saber bem o que falar
Sei que não se trata das impressões
Mas o que quero mesmo é lhe agradar

Posso lhe mandar flores
Até mesmo um buquê
Posso lhe escrever uma carta
Só não consigo fugir do clichê

Sem razão ou um porquê
Por versos tortos tento lhe dizer:
Há dias, muitos dias, penso só em você

Sem decassílabos
Ou redondilha maior
Mas de meus sentimentos, fica apenas o melhor

Má Formação

Sara tem vinte e poucos anos. Aparenta trinta. Nasceu com uma má formação no coração, e aos quinze descobriu que não tinha força suficiente para bombear sangue para todo o seu corpo frágil. Desde aquela época, sua vida fica a mercê de medicamentos. Sara já tentou drogas ilegais e tratamentos experimentais. O único remédio que funciona no seu caso custa mais da metade do seu salário, mas isto não a preocupa, pois não tem muitas despesas. Sara mora sozinha em um quartinho de 6 metros quadrados no último andar de um grande edifício esquecido na lateral de uma avenida movimentada. Todo dia cinco de cada mês, Sara conta o bolo de notas que guarda no bolso e vai a farmácia da esquina comprar os seus remédios. Religiosamente, ela engole as pílulas depois do mesmo almoço de sempre. Sara convive mais com o gato que achou na rua do que com os colegas de serviço. Mas isso não a preocupa, pois não tem muitos amigos.

Ninguém nunca a viu sorrir ou chorar. Um dia disseram a Sara que alguém assim, sem nenhuma emoção, seria assim por não possuir coração. Ela explicou da deformação no átrio esquerdo. Quis sentir raiva. Tentou ficar triste, indignada. Desta vez, não era ela a insensível. No mesmo dia, Sara procurou um médico. Os remédios que faziam seu coração pulsar poderiam inibir todo tipo de sentimento. Sara não sentia nada. Fome, frio, sono, tesão, felicidade. Ela não saberia identificar nenhum deles, pois não sabia o que eram. Ela viu aquilo como uma grande ironia. O que a mantinha viva não a permitia de fato existir. Ela nunca havia experimentado nada. Tudo que havia imaginado sentir não passava de uma ilusão. Sara percebeu como era diferente de todo mundo. Era apática. Para ela, era patética.             Continuou na rotina ordinária. No dia cinco, contou as notas. Foi a farmácia. Comprou o de sempre. Alugou uma comédia, viu um filme de terror. Ela não sorria e nem chorava. Suas emoções continuavam inibidas. Cansada de não sentir, quis devolver os medicamentos. O balconista explicava que Sara não poderia devolver o produto. Sara explicou que com aquilo, que nunca sentiria nada. Descobriu aquela hora que nunca havia se quer sentido a si mesma. Ela queria ficar nervosa, eufórica e resolver aquilo tudo com desespero. Não conseguiu. Tentou trocar os remédios por aspirina, antialérgicos, mas todos sabiam que ela não sentia dores e nem tinha crises de qualquer tipo.

Menos de uma semana depois, Sara resolveu parar com a medicação. Usou-a por tanto tempo que talvez o que ainda restasse no seu organismo seria suficiente para mantê-la viva, permitindo que ela sentisse algo. Ela queria sentir qualquer coisa. Ódio, amor, não a interessava o que. Sara continuou sem sentir nada por dois ou três dias. Talvez estivesse fadada a ignorância e talvez fosse melhor assim. Quando já ia desistindo da idéia, Sara sentiu uma pontada no peito. E ela não soube o que era, pois nunca havia sentido. Mas era o mais próximo que ela chegaria do desespero. O seu átrio defeituoso já não dava conta de levar sangue suficiente para que seu corpo a mantivesse de pé. Sara caiu. Mas antes que seu coração de vez parasse, ela finalmente experimentou o que tanto queria. Sara sentiu. Sentiu dor e solidão. Mas sentiu. Foi encontrada no chão, dias depois, esboçando incompleto o que, para ela, seria o seu primeiro sorriso.

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A Verdadeira História da Cinderela

Em tempos longínquos, onde as pessoas alienadas pelo absolutismo de Maquiavel ainda se submetiam seus direitos a um rei, havia uma mocinha, muito loira e muito magra (do tipo que saí hoje em dia na Playboy) chamada Cinderela. Filha de um membro rico da corte, seu pai casou-se com uma imperatriz dos Países Baixos pelo título da nobreza, mas, por ser cassado por infidelidade ao Rei, teve que fugir para alguma ilha no Caribe. Cinderela, desde então, passou a morar com sua madrasta e suas duas filhas invejosas, que evidentemente morriam de ódio por não terem inventado a lipoaspiração ainda naquela época.

Em anos gloriosos, a madrasta má e suas pupilas tinham dois empregados cada. Mas inspiradas por Maria Antonietta, a prima rica da França, começaram a disseminar o capitalismo no sul da Europa, gastando grande parte de sua fortuna com sapatos e contraindo uma enorme divida com a bisavó da Coco Chanel. O maior temor da madrasta má era que a alta burguesia descobrisse que a família de peruas não pudesse nem arcar com um servo, e foi decidido com votos unânimes que a encarregada dos serviços domésticos seria a enteada querida.

Enquanto a high society não descobria do furo nos cartões de crédito, os convites para os grandes bailes continuavam a chegar. A demanda por novos vestidos era cada vez mais alta, contrapondo com a conta corrente das adoráveis irmãs. Bisavó Chanel já se recusava a trabalhar à prazo, e a única saída era contar com a ajuda de Cinderela para cortar alguns retalhos. Cinderela, que nunca havia freqüentado as baladas da corte, aproveitou uns panos e se presenteou com um vestido cor de rosa a lá Geisy Arruda para arrasar na noite. Mas obviamente, a madrasta e suas filhas invejaram o decote e impediram a pobre Cinderela de ir a festa, derramando pó de arroz e quebrando vários frascos de perfume, para que ela tivesse afazeres a noite inteira.

Barangas e com toneladas de maquiagem, as irmãs más seguiram para o baile funk. Cinderela, triste e desconsolada (e com o vestido já cheio de borra de café) se pôs a chorar sobre os baldes e os panos de chão. Mas não demorou para que as ratazanas e as baratas que Cinderela pacificamente permitia residir no quarto das irmãs se sensibilizassem com a causa e logo teceram um novo vestido para a amiga bondosa.

A vizinha gorda, que todos diziam ser macumbeira, ouviu o choro de Cinderela e também se propôs a ajudar. Depois de assinar alguns papéis, presenteou-a com um Porshe conversível laranja, e as ratazanas, mesmo não tendo carteira de direção, se ofereceram a levar a então bela dama para o tão sonhado baile. A única condição seria que a jovem retornasse a meia-noite, pois o aluguel do carro era caro, e a velhinha não poderia arcar.

Já na festa, todos os olhares se voltaram àquela até então desconhecida garota, que seduzia a todos no salão. A beleza e a simpatia de Cinderela chamaram atenção até mesmo do príncipe, que a tirou para dançar. Entre olhares apaixonados e sorrisos discretos, eles dançaram durante toda a noite todas as velocidades do Creu. Mas já era quase meia-noite, e a jovem Cinderela precisava voltar para sua realidade. Sem se despedir, saiu correndo e sem perceber, deixou cair o sapatinho de plástico. O príncipe, já apaixonado e boquiaberto com a garota e o seu rebolado, encontrou o acessório na escadaria, floodou a timeline do Twitter de todo o reino em busca daquela que havia roubado o seu coração.

Em todo o reino, os servos passavam experimentando o sapato em cada uma das moças que encontravam. Um dia, bateram à casa de Cinderela. As irmãs, desesperadas, pensaram em cortar o dedão para fora para que o sapato coubesse, mas nada adiantava para quem já nasceu com uma prancha de surf colada aos pés. Como sabiam o tamanho do pé, do busto e do quadril de Cinderela, não quiseram permitir que a meia-irmã experimentassem, pois já sabiam que se encaixaria perfeitamente. Cinderela teimou até que conseguiu que colocassem o sapato em seus pés. Mas a partir daí, não ocorreu o final feliz que todo mundo sempre esperou. O servo real viu na sola do sapato: o artefato era da China, importada da 25 de Março, e não da França, como o príncipe pensou. E a Cinderela, coitada, voltou para o manicômio, onde a sua madrasta era na verdade a sua psiquiatra, que finalmente diagnosticou, por não existirem Porshes alaranjados e nem ratazanas que tecem seda, que a sua paciente tinha uma esquizofrenia avançada, e que as duas enfermeiras encarregadas não dariam conta do caso.

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra enorme e gorda
No meio do meu maldito caminho
nao me esquecerei desse desastroso acontecimento
No meio do meu caminho tinha uma pedra (ou seria um espinho?)
Tinha uma pedra no meio do meu caminho
Que eu furiosamente chutei
E acabou com o meu pobre dedo mindinho