Em uma manhã nublada de um sábado qualquer, ele vestiu o seu melhor terno. Surpreendeu à mulher, que já estava acostumada a insistir que tirasse as camisas velhas para passá-las na gola. Perguntou-o se era alguma ocasião especial. Reunião, proposta de aumento, pedido de demissão. Nada. Ele apenas sorriu, beijou-lhe a testa, tomou um gole de café, deu partida no carro velho. Resolveu segui-lo. O almoço típico do final de semana – o único dia que o desastre culinário concretizava-se possível – poderia atrasar uma ou duas horas. Talvez ele estivesse doente e tivesse uma consulta, talvez a melancolia do fim de ano o amolecera e optou por visitar os familiares há tanto esquecidos. Colocou no corpo o primeiro vestido desleixado que viu a frente. Dessa vez, não pintou os olhos, as bochechas, nem os lábios. Tinha pressa. Não podia correr o risco de perdê-lo de vista.
Dirigia devagar, a dois ou três carros de distância para não o surpreender ou ser deixada para trás. Estava curiosa, quando ele parou em frente a uma floricultura. Enquanto esperava do outro lado da rua, ele surgiu com um buquê de flores. Estranho. Sempre soube que ela nunca gostara de rosas, margaridas ou tulipas. Talvez fosse mesmo para a mãe ausente. Talvez ele houvesse conhecido uma outra mulher a quem faria tudo que não fez a ela. Alguns atrasos na semana, reuniões em horários incomuns. Era uma amante.
Seguiram caminho. Ela já não sabia o que deveria sentir. Tristeza, ódio, decepção. Era, acima de tudo, uma mulher dedicada e bem sucedida. Acreditava convictamente que não deveria estar se sujeitando aquilo tudo por alguém que nunca a proporcionou grandes realizações, grandes emoções. Era ela quem deveria estar sendo perseguida, quem deveria estar finalmente vivendo uma aventura. Mas não. Fora aquela que se deixou tornar comum, ordinária demais.
Ainda na perseguição, percebeu que há anos, viviam uma farsa. Forjavam felicidade entre os cheques sem fundo e o financiamento da casa com grande jardim. Ainda o amava. Não como amou Rafael ou Joaquim, uma, duas décadas atrás. Talvez já fosse apenas conformismo, e ela deveria fazer como ele, procurar novas pessoas e continuar fingindo que estava tudo muito bem nos jantares semanais organizados pela vizinhança.
Poderia ser uma mulher mais nova, mais bonita ou uma qualquer totalmente vulgar. Só precisava ver o rosto, as feições e as medidas do busto da nova ela. Dirigia de volta para casa. Cortaria cebola, cataria feijão, refogaria o arroz, colocaria pimenta demais para que tudo ficasse incomível.
Iam cada vez mais longe. Ela nunca estivera naquela parte da cidade. Definitivamente, não era a mãe, e não parecia haver consultórios médicos na região. Flores só são dadas a médicos em casos extremos. Ninguém havia salvado a sua vida recentemente – pelo menos, não que ela soubesse. Podia ser mais um segredo. Não importava qual era esse segredo. Ele existia. Era este o problema.
No que aparentava ser o meio do nada, ele estacionou. De longe, ela ficou ainda mais confusa. Não havia restaurantes, cafés ou cinemas ali. Não seria possível que ele a trocaria por alguma mulher que morasse em uma daquelas espeluncas. Desceu do carro, carregando as vistosas flores. Ele abria o portão de grades pretas, e ela se aproximava vagarosamente, mas sem conseguir visualizar o que se passava ali.
Ela esperava respostas das quais nunca obteve nem um aceno de longe. Ele não tinha nenhuma amante, almoços de negócios ou médicos que o fizeram tão bem. Dias depois, confabulou com as amigas que nem sequer demonstraram aflição. Alguns homens escolhem o sábado para cerveja, feijoada, ou futebol. Mas porque o seu – logo o seu – pegara o seu fim de semana e escolhera o melhor terno, as melhores flores para visitar o cemitério? Seus entes – nem tão queridos estavam todos vivos e havia ocasião especifica para um passeio tão inusitado.
A dúvida a perseguiu por muitos dias. Havia noites em que não dormia. Dividia a cama e as camas com um homem que ela julgava não mais conhecer. Talvez não devesse ter-lo seguido nunca. Encheu o pulmão quando resolveu finalmente cessar o que a atormentava com uma pergunta.
Ele não se mostrou surpreso e nem desconfortável com o questionamento de sua mulher. Pegou-a pela mão e dirigiram – desta vez juntos – para aquele distante lugar. Não levaram flores e tampouco fizeram alguma cerimônia. Não disse nada. Levou-a ao tumulo que ainda ostentava as flores da última visita e ela finalmente se surpreendeu. Preferia que fosse uma amante. Ali jazia um coração. Frio e rígido, impenetrável, como se fosse esculpido em mármore. Ali há muito tempo jazia um coração, e este coração era o seu próprio.


