Sobre as eleições

Eu voto desde que eu me entendo por gente. Não sou nenhuma cidadã extraordinária com direito a escolher números e candidatos desde que nasci, longe disso. Mas urnas eletrônicas já são minhas velhas conhecidas. Nasci no ano de uma eleição – e pela minha inaptidão infantil, naquele ano não o pude fazer. Mas nas eleições seguintes, eu já estava lá. Eu adorava quando chegava o dia das eleições. Minha mãe arrumava o meu melhor vestido e grudada no pescoço do meu pai, eu estava lá, em uma fila de gigantes esperando para fazer minha função. Nas primeiras vezes, ele segurava os meus dedinhos pequenos e ordenava os números da maneira que queria. Achava incríveis aquelas teclas, aquelas cores. Até foto daqueles velhos feios tinha! Eu fui crescendo – pensando bem, nem tanto – e ganhando minha própria autonomia. Com toda petulância permitida a uma garotinha de 8 anos eu dizia: dessa vez eu escolho e ninguém há de palpitar. E quando o segundo turno chegava então, nem se fale da minha alegria. Os meus passeios e minha diversão no domingo eram duplicados, e isto incluía picolés de todos os sabores e gibis da Mônica se eu fizesse o meu dever direitinho. Me achava o máximo por isso. Chegava à segunda-feira na escola contando os meus feitos do final de semana, e meus coleguinhas ficavam abismados. Alguns duvidam, alegando que eu não tinha nem tamanho para isso (e esse problema me persegue até hoje), mas no fundo sei que morriam de inveja porque eles demorariam mais de uma década para fazer aquilo que eu tanto gostava. Eles demorariam sim, mas não entenderiam como era legal para mim. Porque já estariam velhos, aquela coisa legal estaria aos poucos sumindo enquanto eu carregaria comigo aquele gostinho pelo voto que tinha desde criança. Em partes, eu até que estava certa. Pouca gente sabe da magia. Mas ao contrário do que eu pensava, eu também a perdi em partes. Já tenho meu título. Aquele papelzinho mesmo, que ainda nem plastifiquei. Devo confessar que não é mais tão divertido, já é uma obrigação. Mas também não é nada mal andar com minhas próprias pernas: votar com meu próprio RG.

Demolição

As paredes me entediam
As paredes para mim mentem
As paredes me abominam
As paredes não são assim tão sólidas
As paredes…
Talvez as únicas que me entendem

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Arquivos

Por mais uma tarde, ele estava sozinho. De toda forma, isso nunca foi um incomodo. Aproveitava esse tempo para manter a ordem na casa – arrumava as prateleiras, tirava o pó das fotografias – e também em sua vasta mente. Guardava apenas as memórias necessárias em um arquivo especifico e o resto ia para fora de casa antes das seis horas como o demais lixo. Era uma tarefa que exigia disciplina e concentração. Não era assim tão fácil separar o que tinha relevância para si mesmo. Naquela tarde ele se encontrava com uma expressão diferente na face. Aparentava estar confuso. Carregava nas mãos um amontoado de diversas coisas – e não sabia o que fazer com elas. Não sabia se eram dele, se um dia o pertenceram. Como o cheiro do café recém-coado, dispersava nas paredes azuis pintadas a dois toda a carga emocional que uma xícara poderia carregar antes que trincasse. Enfim, a louça branca rachou. Não era uma rachadura grande nem escandalosa. Mas ela estava lá. E ele podia ver. Ela estava lá, ele sentiu o seu cheiro insuportável vindo do saguão. Ela tinha as chaves, mas tocou a campainha. Duas vezes. Já estava impaciente, e então o telefone tocou. Ele já sabia quem era. A música clássica em tons fajutos cessou. Levou o telefone aos seus ouvidos e naquela hora, soube exatamente o que dizer:
- Só estou bem por minha felicidade não depender de você.

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Palavras

Já não sei mais o que fazer para que elas te atinjam. Já tentei norteá-las com canções, amarra-las em papéis coloridos, embrulhar-las em embalagens vistosas. Nada funcionou. Elas já foram em mísseis, flores, e até mesmo montadas em um cavalo branco. Confesso até que as fantasiei para que não parecessem tão brutas nem tão pesadas, algumas vezes até exagerei para que recebesse alguma atenção, mas não permiti que elas deixassem de ser reais. E elas nunca chegaram até você. Nunca surtiram nenhum efeito. Não te comoveram, não te fizeram derramar sequer uma lágrima, não te amoleceram essa pedra que você tem no peito e insiste em chama-la de coração. E minhas palavras sentiram essa indiferença. E eu peguei essas palavras, agarrei-as com toda minha força, e traduzi-as em sentimentos. Esses sentimentos bem quando estavam em minhas mãos. Deixaram-me machucada, cheia de dores, de fraturas expostas. Mas devo-lhe informar que já não fazem mais parte de mim. Fiz questão de arrancá-los enquanto ainda não estavam cicatrizados, enquanto minhas feridas ainda estavam abertas. Já não sei mais onde estão. E nem mesmo procurarei por ai, em cada esquina de cada sonho. Já não são mais meus. Agora eu já pego as minhas palavras, que antes te afagavam, que antes te acariciavam à face, e despejo como se fossem clichês para que te corroam e lhe façam sentir algo na alma, ainda que seja dor. Agora minhas palavras estão sozinhas. Não tem quem as escolha ou quem as acompanhe. Mas já está tudo bem. Porque até a minha solidão é mais doce do que este teu gosto amargo.

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