Maria H.

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Eu tenho uma arma carregada apontada para sua cabeça. Poderia puxar o gatilho e estourar a sua face ou dar uma coronhada tão forte em sua nuca que você cairia desacordado. Não me lembro como chegamos aqui, mesmo sendo totalmente irrelevante onde estamos. Seus miolos voariam até a janela do quarto e o sangue escorreria no vidro opaco. Finalmente, tenho o controle que sempre quis, mas que nunca me foi permitido. Você ainda duvida de que não serei capaz. Como sempre, está enganado. Gastei horas pensando em maneiras eficazes de te torturar. Queria te ver sofrer por mim, ao menos uma única vez. Quebraria seus discos e queimaria suas palavras. Mas você ainda permaneceria sem sentir nada por mim. Quero que sua pele arda. Que você sinta o meu amor queimando junto aos seus trapos. Até o seu olhar sentirá dor. Mas não uma dor passageira. Sua dor nunca cessaria. Seria continua e crescente, de uma maneira a qual você nunca se acostumaria. E sentiria. Sofreria por saber que desta vez eu não te salvaria, por mais que eu mesma quisesse. Poderia levar uma maça para casa, e quando você chegasse, estaria te aguardando com ela escondida por trás das costas que você tanto crucificou. E te falaria o quanto um dia te quis. Um close e um fade em preto e branco. “Baby it’s you” começaria a tocar na velha vitrola, exatamente no mesmo momento que eu iniciaria o meu ataque. Sem hesitar, sem sentir se quer piedade/ Mas não fui capaz de concretizar nenhum dos meus planos de chegar perto de lhe causar o que você me causou. Fraquejei, temi pela minha solidão, fugi em prantos, e logo depois, voltei. Eu tenho uma arma carregada apontada para sua cabeça. E nem assim você é capaz de dizer a única coisa que eu preciso saber.

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Ovos Fritos

Antes de entrar em casa, fiz questão de livrar-me dos meus sapatos. Não queria sujar o seu piso branco com a imundice de onde estive. Peguei o primeiro ônibus que passou por mim, mas não acho que parar a sua porta tenha sido sorte ou mera coincidência. Estava tudo fora do lugar, menos o velho fogão. Enquanto esperava, um álbum de um grupo qualquer me lembrava de quando nos resumíamos apenas a umas gotas de suor. Era simples. Era demais. Era o seu corpo contra o meu. E só. Quebrei dois ovos que encontrei perdidos na geladeira. Ao contrário de todo o resto, eles eram extremamente frágeis. Logo fritaram. Demoraram um pouco mais para esfriar e permaneceram intactos, aguardando pacientemente por quem os atacasse sem piedade, assim como eu aguardei. Senti sede. Minhas mãos estavam tremulas. Meus pés, além de descalços, agora estavam encharcados. E sem motivo aparente, eu não conseguia me livrar daquele lugar. Eram tantas as memórias, eram tantos os desprezos… Procurei-te em outros cômodos, mesmo sabendo que não encontraria. Achei de tudo. Papéis amassados, roupas atiçadas, caixas, e malas. Não o que eu queria. De que passam as pessoas, se não de expectativas? Já sabia que sua volta era remota. Reuni alguns apetrechos, fechei a cortina que não combinava com o quarto, assim como a blusa surrada que eu insistia em ostentar. Peguei os meus sapatos vermelhos no jardim, molhei a grama. Parti definitivamente. Eu até tinha as suas chaves… Mas não você.

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Nova Página

Despautada, aguarda ansiosamente conceber novas palavras. Mas ela não acolherá fortes frases de efeito, tão pouco aquela perspicácia padrão que sempre assombra as letras bem desenhadas. Diferente de outrora, a escrita é lenta, dolorosa. Foi-se embora facilidade, os dedos não são mais tão ágeis, a ponta do lápis fere a página com muito mais leveza – ninguém quer que as folhas sangrem. As linhas são tortas. A má pontuação é evidente e o horário, inadequado. Ouvem-se vozes que não dizem nada. Apenas assombram e asseguram-me que não estou desacordada. Em partes. Ah! E se toda canção tivesse uma história, ou se todo espinho trouxesse uma flor… Mesmo se eu pudesse absorver todo o amor do mundo, minha alma recém calada permaneceria fria, e imediatamente, após um abraço qualquer, repousaria em um novo lar. Mas a noite, como de costume e dominada pelo encanto, retornaria sempre ao mesmo canto, aquele mesmo, que sempre esteve lá. A carne ameaça estragar, as mãos permanecem tremulas. Despejam em mim toneladas de emoções, e assim, o prazo de validade tende a aumentar.  E para as mesmas coisas, surge sempre um novo gosto, porém é o mesmo rosto que esquece a hora do jantar. Por mais doce que você ou o resto do mundo esteja, minha boca, minhas palavras… Nunca estiveram tão secas. Tão amargas.

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