Você se lembra de quando chegou.
Eu estava ali.
Onde sempre estive.
Com meus papéis pálidos e rasgados ao meio e preparada para metralhar qualquer um que cruzasse o limite da minha zona conflitante que sempre foi a minha vida.
Mas você me desarmou.
Com um olhar de canto.
Toda minha artilharia pesada estava ali, espalhada no chão imundo.
E eu não me preocupei em recolhê-la enquanto você escutava os meus problemas e fingia se importar, embora achasse tudo muito desnecessário ou supérfluo.
Você precisava de um ombro amigo, eu lhe dei um abraço.
Eu precisava de um ritmo, você me deu uma melodia inteira.
Antes, eu não caminhava por aqui com o coração fora do peito.
Agora, ele estava ali.
Escancarado, ao meu lado.
E dizia coisas que eu nem sempre queria ouvir.
Minhas palavras também não eram moderadas.
Nunca foram.
E você facilmente encontraria quem te dissesse mentiras em qualquer lugar.
É o que as pessoas fazem.
Mas eu não estancaria inverdades no seu corpo.
Sim, deixaria marcas, cicatrizes tão fortes que o tempo não fecharia, mas não tão profundas quanto mentiras.
Não te faria acreditar naquilo que não sentisse.
Convencer-te daquilo que de fato sentia, já era suficientemente trabalhoso.
Você estava então ali, ocupando um espaço que até então era uma sala vaga anteriormente decorada com cores horrorosas por amantes incompetentes.
Mas não.
Você não era o único que precisava ser salvo.
