Agora, seu nome foge a minha memória. Talvez eu me recorde depois, mas não acredito vá fazer alguma diferença. Retratei minha grosseria e o disse para se acostumar. Dali pra frente, e eu sabia disto, nossas brigas desnecessárias seriam extremamente comuns. Descobri sua inconstância aos poucos. No primeiro dia, almoçamos juntos. No segundo, fazíamos graça e jogos mudos com quem nos fitavam. Choramos a morte do Senna, desesperadamente lamentamos o suicídio do Kurt Cobain, juntos. E eu não gostava das musicas que ele escutava. Hoje, alguns daqueles barulhos são os únicos sons que consigo ouvir de verdade. Nós já não nos importávamos com os jogos de futebol ou com o aluguel atrasado do meu então vazio apartamento. Estávamos constantemente aprisionados naquele lugar, um no outro. As fugas periódicas não iam mais longe do que ao cinema na esquina de sua casa. Naquele ano conheci alguns diretores que vidravam o seu olhar de tal forma que nem eu conseguia, mas não me importava. Vi-me fascinada quando conseguiu escolher o meu lanche favorito sem minhas dicas ou opiniões. Mostrou-me alguns filmes, e eu o emprestava alguns livros. Nunca passara das primeiras páginas. Ia sempre direto as últimas folhas, me contava o final e tentava adivinhar o resto da história. Pergunto-me se também tentava adivinhar o desenrolar da nossa. Começou assim, do nada, e em pouco tempo éramos como duas metades da mesma pessoa. O ruim é que às vezes não gostamos de nós mesmos. Nossas carcaças começaram a desgastar. O cheiro com que voltava do trabalho me irritava. Eu já não gostava de esperá-lo chegar para começar a minha jornada e a nossa dependência me incomodava demais. E nenhum de nós tinha coragem de enfrentar a verdade. E ninguém queria acreditar. Mas tentamos. Tentamos exaustivamente, tentamos até não podermos mais. Quando decidi partir, estávamos no cinema. Sai em meio uma cena qualquer, e deixei com ele tudo que tinha. Pela primeira vez, desisti. Seu cansaço não me alcançou. Pergunto-me em que estado o deixei: se respirou aliviado ou se lamentou e ruminou por alguns dias a minha permanente ausência ou que fim meus discos levaram. Hoje não sei o que faz ou quem ele agora é. Penso que o vi um dia desses, caminhando na multidão. Pensei em pará-lo e perguntar as horas. Mas dessa forma, nossa história não seria tão interessante a ponto de valer a pena contar-la. Talvez voltemos a nos encontrar ou ainda ignoraríamos nossas existências por um tempo aleatório. Mas não é isso o que verdadeiramente importa.
Archive for Março, 2010
Memórias de 94 – Parte II
A casa da mãe Joana
O Brasil está de portas abertas. E se bobear, a sua casa também. Eles chegam sem cerimônia, não tocam a campainha antes de entrar e vão sem nenhum receio ao que temos de melhor. Não é a guarda imperial, os nazi-fascistas ou extraterrestres: as celebridades estão aí.
Um novo regime se instaura na “terra brasilis”: o astrocentrismo. Não importa o dinheiro na cueca, esquemas milionários ou o aquecimento global. O entretenimento atual e a única preocupação parece ser a vida, obra e desgraça de qualquer indivíduo que se mova e apareça na mídia e nos programas de fofocas. O nosso predatismo é diferente. Somos sanguessugas que gostam de se alimentar do pior prato que consta no cardápio. As celebridades se prostituem por seus espetáculos e pedem em troca a nossa dignidade. De qualquer forma, não há do que reclamar; nós mesmos estipulamos o preço baixo. Beijamos os seus pés, mandamos buquês caros para os hotéis de luxo. Não importa o quão grave esteja a crise ou a seca no nordeste; há sempre um fundo de reserva para atender às exigências, aos caprichos, e às necessidades inúteis dos pobres coitados que fazem tanto sacrifício saindo de suas ilhas particulares por alguns milhões e vieram a um pais de terceiro mundo.
E não importa o rei do pop da vez: sempre terá um súdito brasileiro disposto a se sacrificar.
As melhores cenas do cinema
Ok, vamos democratizar um pouco as coisas por aqui. É muito difícil escolher filmes, atores ou diretores favoritos para quem gosta de cinema, mas eventualmente, a gente sempre se pega tentando fazer uma listinha. Então vai ser assim: eu vou postar algumas das minhas cenas favoritas, e a medida que vocês forem postando comentários com links de frames das cenas, eu vou atualizando aqui. Caso não tenham a foto, muito provavelmente, ela está no What The Movie, ou no pai Google. O resultado, vai ser no mínimo curioso, e dependendo do bom gosto de vocês – porque no meu eu confio – bem legal!
Easy Rider (1969)
O Poderoso Chefão (1972)
Clube da Luta (1999)
O iluminado (1980)
Tempos Modernos (1936)
Memórias de 94
Era ano de copa. E esses são os poucos e escassos relatos dos quais sou capaz de me lembrar. Não me recordo de onde ele veio. O seu olhar estava completamente perdido, mas quando sorria, era completamente capaz de me convencer o contrário. O seu casaco da marinha era desbotado e o seu cabelo, constantemente despenteado. Eu estava lá. Sentada no meio da praça. Escondida. Havia uma multidão ali naquele dia, e eu me recordo do seu caminhar torto em minha direção como se ele estivesse vindo agora mesmo. Até hoje não sei por que, em meio de tanta gente, ele escolheu logo a mim. Eu nunca chamei atenção e tampouco tive se quer já tive algo de extraordinário. Na época, mal tinha dinheiro no bolso pra pegar o ônibus de volta pra casa depois daquele trabalho imundo que haviam me arranjado. Eu o largaria em menos de uma semana. Talvez se não tivesse o conhecido, ainda estaria fazendo contas e passando notas a limpo. Talvez eu já tivesse sido promovida e ganharia o suficiente para pagar o aluguel de um cômodo mais decente do que esse… Mas isso já não mais me importa. Ele parou estrategicamente em minha frente, bloqueando o nada que eu então observava. O encarei por alguns segundos. Vi que não desistiria, e então fiz questão de direcionar meu foco para outro canto qualquer. Ainda não sabia, mas ele seria chato e irritante assim sempre. E sua inconveniência me faria gostar mais das suas piadas sem graça em plenos almoços, e sua insistência me deixaria completamente dependente de sua presença. Mas eu ainda levaria um bom tempo para descobrir isso.
Como não disse nada por um longo intervalo de 30 segundos, logo assumi que o próprio não sabia o que queria. Suas primeiras palavras foram algo como “Não está me vendo aqui?”. Minha acidez matinal não me permitiu outra resposta. Preferia não estar. Pude ver, pela única vez, a decepção em seus olhos. Não era o tipo de cara acostumado a receber esse tipo de resposta. Aposto que na escola, era dos rapazes mais requisitados, e aproveitava isso muito bem. Sua aparência era vistosa, e me agradava – até demais, embora não tivesse percebido assim, de primeira vista. Estava indevidamente ocupada com um daqueles livros inúteis que gostava naquela época. E ele não insistiu, o que realmente me incomodou. Eu também nunca estive acostumada em ter atenção, então pelo desastre de reconhecimento, estávamos quites. Levantei, deixando meu pequeno almanaque no banco descascado e fui ao que, pode-se chamar de, nosso pequeno contato físico-emocional. Não pedi desculpas ou o número de seu telefone. Não fui educada nem simpática, mas tenho quase certeza de que foi ali que o tive pela primeira vez. Perguntei se estava precisando de algo, em uma tentativa tola de puxar conversa e retalhar minha típica brutalidade. A resposta foi das mais banais, e por isso ainda acho que foi uma mentira das bem improvisadas. Ele não queria só as horas, pois mais tarde, naquele dia, pude perceber um relógio coberto por suas mangas. Informei-o horário e vi seu desapontamento logo em seguida. Era segunda-feira, e ninguém era masoquista o suficiente para gostar daquele dia em si. Mas o jogo do Brasil contra a Rússia era uma ótima desculpa para faltarmos ao serviço. Uma pena que não interromperia o turno inteiro. Ainda faltavam duas horas para o início da partida. Só voltaríamos a nos ver depois do intervalo do almoço, se eu o convidasse para um café, e eu nunca fui de perder oportunidades.

Ps.: É a primeira parte do conto. A história completa será postada aos poucos. Fiquem atentos para atualizações da continuação.
O Lobisomem

Filmes de criaturas fantásticas sempre agradam a muitos – e eu sem dúvidas estou entre eles. Adoro monstros, vampiros, Frankstein e… lobisomens. E um longa que tenha lobisomens protagonizando Benicio Del Toro desperta interesse, ou no mínimo curiosidade em qualquer pessoa que se interesse por cinema, suas vertentes e principalmente efeitos especiais. Não dá para esperar pouco de um filme com o orçamento estimado de US$85.000.000 e um elenco como o do “O Lobisomem”. A associação de um ator com determinado personagem é praticamente inevitável, mas se o ator mantiver os seus mesmos trejeitos, fica difícil imagina-lo em outro papel. É o que acontece com Antony Hopkins, que interpreta Sir John Talbot, pai do lobisomem Lawrence, vivido por Del Toro. É impossível assisti-lo sem ver claramente a mesma frieza que usou ao interpretar o Hannibal Lecter. Hugo Waving fica deslocado na trama, perdendo o seu espaço e a chance de salvar o filme. Ainda assim, o seu papel é feito com muita precisão. Del Toro, porém faz o seu papel sem enfrentar muitas dificuldades, até porque não parece ser um papel muito desafiante para quem já foi Che Guevara ou rouba a cena em filmes como 21 gramas. A progressão do filme é lenta e decepcionante, e as quase duas horas são muito mal aproveitadas e parecem se estender a uma eternidade nas salas de cinema. Certo, o filme é previsível e perde tempo com isso. Mesmo quem não viu trailers e posters, sabe desde a primeira cena de que quem se transformará no Lobisomem é o Benicio Del Toro, então não era preciso rodear tanto em torno de um mistério que na verdade, não existe. Aliás, é exatamente o que falta no filme. Não há mistério nem surpresas, sendo que o espectador em raríssimas cenas se sente assustado ou surpreendido. O filme, que é um remake do clássico de 1941 e é dirigido por Joe Johnston deixa muito a desejar, e não consegue, durante sua narrativa, se prender a um só estilo. Vaga pelo suspense previsível e até arrisca em termos psicológicos, e funcionaria melhor caso se prendesse a um só deles. O estilo, o clima do filme, a fotografia fria encaixaria perfeitamente em um longa de Sherlock Holmes. Creio que o roteiro tinha um potencial muito maior do que foi usado no filme. Ainda assim, a cenas de violência, mesmo que bebam um pouco no trash, são muito bem feitas, e as da transformação do homem para lobisomem quase fazem valer a pena a extensão lenta e os diálogos clichês. Não é tão bom como deveria ser, e nem tão ruim como andam dizendo. O filme pelo menos serve de dica para mostrar a Stephanie Meyer e a turma da saga Crepúsculo como lobisomens de verdade devem parecer.
Sobre a autora

Nina Rocha Campos: humor, sarcasmo, filmes velhos, gírias antigas, rascunhos esquecidos, críticas ácidas, frases vagas, música barulhenta, café forte, alguns livros, chocolate meio-amargo e 17 anos bem vividos.-

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