Archive for Janeiro, 2010
Como sobreviver a vôos
Sempre escolha o assento próximo à janela. Alguém certamente te pedirá para ceder o lugar – quem não gosta de se sentir potente, ao se ver passando bem acima de quem um dia te sacaneou, mas hoje sequer lembra do seu existir? Responda o que lhe calhar bem e julgue pelas aparências: algumas pessoas não têm o precioso dom de respeitar espaços, e vão sempre trombar seu cotovelo horroroso quando você estiver no ultimo gole do suco artificial com três pedras de gelo que você tanto estimou durante todo o serviço de bordo. Encha o seu bolso de todos os tipos de bala que te oferecem. Podem ser uma excelente arma de suborno para o pirralho de trás que há duas horas acha que a sua poltrona reclinável – que só não é mais dura que você – é um saco de pontapés. Abuse da boa vontade. Aperte todos os botões, acenda todas as luzes. Forje um ataque de pânico ou comece a cantarolar. Atire a revista da companhia aérea dentro da bolsa, mesmo não sabendo para que servirá. Mastigue um pedaço do lanche de plástico, esconda-o no saco de vômito e diga ter tido o seu melhor jantar da ultima década. Pergunte se não coam café, como adoçam o suco, ou se tem um chuveiro no projeto de banheiro. Faça do colega ao lado seu melhor amigo de infância. Conte-o todos seus problemas e seus piores segredos. Ele esquecerá de você logo após o avião pousar. Fale do seu chefe inconveniente e da sua vizinha eloqüente, e só depois se certifique se eles têm alguma ligação familiar. Será sua única companhia nas próximas escalas, então se gabe dos seus feitos, suas vantagens irrelevantes, mostre de relance os defeitos. Os relacionamentos são descartáveis e sem efeitos, portanto não se esqueça de nunca passar o número do seu celular. Tudo é banal, e quando minúsculas e insignificantes cidades desaparecem em um instante, quase devoradas pelo ar, não há nada consistente o suficiente que valha realmente a pena se apegar.
Sean Lennon

Imagine se você fosse músico, e seu pai fosse Keith Moon, Angus Young ou Freddie Mercury. Ok, desconsideremos a última possibilidade. Nem sempre carregar um sobrenome famoso pode ser uma vantagem. Além da pressão da mídia, vai ter sempre aqueles chatos “será que o talento é herança genética”. Não é o que acontece com o filho do beatle John, Sean Lennon. Filho de John e Yoko Ono (e nascido exatamente no mesmo dia que seu pai) é compositor, escritor, e até no cinema ele já se meteu. Apesar das comparações inevitáveis com os pais, os traços de Sean não negam nem um pouco o quanto de seu pai que carrega consigo. Sean pode não ter o carisma do pai ou a ousadia da mãe, mas com seu álbum solo lançado em 2006 Friendly Fire – que é trilha sonora do filme homônimo em que também atua – e canções avulsas lançadas pelo seu site, chama atenção pelas letras melancólicas entre o violão e baixo que acompanham a voz rouca do mais novo dos Lennons. Sean ainda trabalhou com o guitarrista do The Strokes, Albert Hammond Jr, em seu álbum de estréia, e tem em seu currículo parcerias com Mark Ronson e shows com o mutante Arnaldo Baptista. É bom ficar de olhos – e ouvidos – abertos, porque não há dúvidas de que qualidade, talento e oportunidades não faltam para o rapaz.
Tylerismo
O mundo hoje é dividido entre vários tipos de pessoas: os capitalistas, socialistas, hedonistas, anarquistas, comunistas, facistas, cubistas… e Tyler Durden.

(Via @joaolennon)
Mania de repetição
Às vezes dá até pra confundir pessoas com discos arranhados ou papagaios de pirata no ombro repetindo sempre as mesmas palavras. Fazem sempre as mesmas coisas, encontram sempre as mesmas pessoas. Pedem os mesmos pratos ou fazem as mesmas ligações, assistem aos mesmos filmes, escutam as mesmas músicas, entoam as mesmas perguntas. Assinam as mesmas revistas, buscam as mesmas respostas, freqüentam os mesmos lugares, dão os mesmos beijos ou forjam os mesmos abraços. Ninguém ousa quebrar a rotina. Porque torna-la tão massacrante se pode ser tão agradável? Sair do círculo da mesmice, correr riscos. Pra que? A gente se inverte, se diverte. Mas sempre se repete. As represálias, as falas, as gravatas e o tipo do sorvete. Porque não arriscar? Detalhes podem ser um tanto quanto insignificantes, mas o shuffle de vez enquanto não é tão aterrorizante como aparenta ser. E não é do modelo de Ipod que tô falando.
Porta-retrato
Ele chamou pelo seu nome. Poderia ser seu vizinho, seu amante, seu amigo. Bateu a sua porta, como um estranho, um intruso. Disse que ela era linda. Ela não escutou. Disse que ela era extremamente bonita. Ela não acreditou. Perguntou se não se cansava dele. Mas era uma pergunta retórica. Mas quem falou que para falar muito é preciso falar demais? Ela disse que o deixaria. Ele simulou um infarto extremamente forçado. Ninguém naquela idade teria um colapso, ainda com todo sedentarismo que o acompanhara pelos anos. Anunciou sua derrota para os amigos. Veio o caminhão de mudanças. Deixou as fotografias para trás. Talvez as tenha esquecido sobre a mesa. Talvez tenha sido proposital. A cama desmontada, o colchão no chão. Sabia que teria uma boa noite… Mas dessa vez, sem ela.

Espelho
Marie não gostava de amarrar os cadarços de seu tênis azul, muito menos de guardar a louça no armário depois de secá-la. Escondia-se atrás de lentes escuras, enquanto seus cabelos despenteados se encaixavam como uma moldura em seu rosto confuso. Marie gostava quando o vento era forte e a fazia fechar os olhos, de achar moedas perdidas nos bolsos de suas calças. Adorava o cheiro de tangerina recém-colhida, e de caminhar pela manhã enquanto o sol nascente refletia o brilho de seu sorriso (aos mais desavisados, poderia cegar se nunca tivessem se exposto a tamanha luz). Marie tinha brilho próprio: brilhava mais que mil estrelas ou duzentas lâmpadas acessas. Não passava despercebida por ninguém, mesmo que sua beleza estivesse alem do que se pode ver e não fosse nada, se comparada a suas incontáveis particularidades. Encantava e era encantada por todo e qualquer detalhe ao seu redor, desde um pingo de orvalho prestes a cair de uma árvore ou o cachorro a atravessar a rua. Podia ter o mundo em suas mãos no instante que quisesse. Com seu sorriso, despertava afeto no mais impetuoso dos assassinos. Mas ela só devolvia o que o mundo lhe dera e emitia seus raios de amor como quem distribui panfletos no semáforo. Seu olhar podia falar em um silencio perturbador o que mil frases não seriam capaz. E não eram capazes. E se calaram, mas não diante de um espelho.

Sobre o amor
Não é o balançar das mãos dadas, os beijos vazios dos jovens aflitos. Não está nos presentes de dia dos namorados, nas juras do eterno que duram até o próximo sábado, ou nas trêmulas promessas proclamadas em vão. Não é dividir o mesmo teto, não é só o terno afeto ou no pagar do ingresso do cinema na tarde de domingo. Não é os abraços, não é os afagos, muito menos a ânsia desesperada de achar em tudo algum novo sentido. Não é acordar e perceber que há alguém do seu lado ou que há alguém preparando o seu café. Não é tão banal. Não é tão simples. Não é tão comum. Não é esperar o fim de semana, não é a lembrança vinda de uma melodia qualquer, não é as letras envoltas em um papel, perturbadas pela falta de quem as lê. Não é você. Não sou eu. Não é um olhar que sorri ao recordar, não é os minutos que a memória pode a qualquer hora apagar… Não é assim, tão próximo do clichê.

Comôdo
Exceto pelo sentimento de culpa, voltou a aquela sala como um criminoso que volta a cena de um crime. Estava tudo no mesmo lugar; nada havia mudado. Do sofá no qual se aconchegara, visualizava uma paisagem crua, vazia; nada havia mudado. Exceto pela nostalgia, do que talvez, nunca tenha se quer existido. Entendeu ali, que não era mais a mesma pessoa. Havia sido modificado por um agente causador de noites em claro e dias de extrema euforia. Exceto pela inquietação, ou pela incerteza, não era mais o mesmo, e nunca mais seria. Breves momentos haviam transformado alguém aflito em alguém encantado. Naquela sala, naquele instante, naquela janela onde nada se via, faltava algo. Como um baralho sem um rei de copas, um quebra-cabeça sem uma peça, uma camisa sem botão, faltava alguém para observar-lhe com ternura enquanto adormecia num fim de tarde ou entrelaçar os dedos entre seus cabelos despenteados. Faltava algo. Exceto por lembranças que por mais belas e bobas que fossem, nunca seriam compartilhadas por egoísmo, mas teriam a oportunidade de serem revividas sempre que aquela sala estivesse vazia. Exceto pelas memórias por ela mantidas, ela nunca mais estaria vazia daquela forma.

Sobre a autora

Nina Rocha Campos: humor, sarcasmo, filmes velhos, gírias antigas, rascunhos esquecidos, críticas ácidas, frases vagas, música barulhenta, café forte, alguns livros, chocolate meio-amargo e 17 anos bem vividos.-

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