Acordou atrasado. Deveria chegar as sete, mas as labutas da insônia resolveram cessar e permitiram poucas horas de sono. Era um homem de grande porte, seu olhar enganava e o seu andar era pouco torto. Quase sempre tinha pressa, embora raramente soubesse onde deveria chegar. “Eduardo, você está atrasado”. “Frase repetida, querida. O café ainda não está pronto? Por favor, trate de providenciar”. Júlia é como sua incansável ama, e não hesita em tentar de tudo para Eduardo não precisar de carinho em outros braços. Sabia que não funcionava, mas se recusava a crer. Ainda assim abriu uma conta poupança para canso de desgraça. Se Eduardo a deixasse, quem pagaria a conta do celular? A escassez seria inevitável, e é a razão de tanto esforço. Ficaram juntos desde cedo, o impulso da urgência da paixão os cegaram. Recusavam-se a enxergar com corações e admitir o erro precoce. “Qual o almoço de hoje, querida? Espero que não seja macarronada de novo. Não demore, tenho reunião logo as duas. Um beijo.” Um beijo irracional, frio e distante. Nem sempre o amor vem com o tempo. Ou vai. Júlia estava errada. Não é uma questão de dias ou de anos. Vem agora e nunca mais aparece. Mas precisava ir ao mercado comprar condimentos pra temperar o frango. Era sexta. Ou era sábado. Não importava. O arroz já estava no fogo. O peso de três décadas já corroia a face abatida de Júlia. A alface estava fresca. “Querida, não voltarei antes das onze, não me espere acordada.” “Porque vem tão tarde, Eduardo?” Um beijo distante, ameno e perturbante. Um beijo indiferente, de um Eduardo que não voltará.
Acordou atrasado. Deveria chegar as sete, mas as labutas da insônia resolveram cessar e permitiram poucas horas de sono. Era um homem de grande porte, seu olhar enganava e o seu andar era pouco torto. Quase sempre tinha pressa, embora raramente soubesse onde deveria chegar. “Eduardo, você está atrasado”. “Frase repetida, querida. O café ainda não está pronto? Por favor, trate de providenciar”. Júlia é como sua incansável ama, e não hesita em tentar de tudo para Eduardo não precisar de carinho em outros braços. Sabia que não funcionava, mas se recusava a crer. Ainda assim abriu uma conta poupança para canso de desgraça. Se Eduardo a deixasse, quem pagaria a conta do celular? A escassez seria inevitável, e é a razão de tanto esforço. Ficaram juntos desde cedo, o impulso da urgência da paixão os cegaram. Recusavam-se a enxergar com corações e admitir o erro precoce. “Qual o almoço de hoje, querida? Espero que não seja macarronada de novo. Não demore, tenho reunião logo as duas. Um beijo.” Um beijo irracional, frio e distante. Nem sempre o amor vem com o tempo. Ou vai. Júlia estava errada. Não é uma questão de dias ou de anos. Vem agora e nunca mais aparece. Mas precisava ir ao mercado comprar condimentos pra temperar o frango. Era sexta. Ou era sábado. Não importava. O arroz já estava no fogo. O peso de três décadas já corroia a face abatida de Júlia. A alface estava fresca. “Querida, não voltarei antes das onze, não me espere acordada.” “Porque vem tão tarde, Eduardo?” Um beijo distante, ameno e perturbante. Um beijo indiferente, de um Eduardo que não voltará.
