
Atordoada por si mesmo, a mulher no casaco cinza continuava a cruzar agoniadamente os lados da sala de estar. Ia uniformemente de um canto para o outro sem hesitar em parecer aflito ou neurótico. As únicas pausas eram esporádicas e estrategicamente posicionadas no centro da sala de frente a uma obra de arte – se e que aquilo pode ser chamada assim – contemporânea e feia, que um de seus filhos mandou em seu ultimo aniversário, para acender um novo cigarro a cada seis ou sete minutos. Esperava o carteiro com um telegrama, uma ligação, talvez uma visita. Já estava cansada do que passara a vida vendo pelas lentes incolores que já não funcionava como antes, a visão já se recusava a praticar suas tarefas, e suas mãos constantemente tremulas, mal eram capazes de segurar o copo no qual passava o café pelas manhas. O marido se fora há mais de 15 anos, não conseguira conviver com o desmazelo, o desapego que nunca a deixara se entregar. Os filhos a culpavam por seus próprios fracassos e desprezavam todos os sacrifícios que havia feito por eles durante o período que com ela ficaram. Mandavam cartões no natal, flores nos aniversários, mas nunca a visitavam, não iam sequer suas esposas exemplares ou suas crias gordas. O telefone nunca chamara e a carta também não chegou. Não era o que merecia. Mas continuou daquela forma até que um deslize a levasse até o chão e não a tirasse mais dali. E, sem mais explicações, em um belo dia, ela sumiu.






