Torradas Tostadas

Archive for Novembro, 2009

Como desaparecer completamente

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Atordoada por si mesmo, a mulher no casaco cinza continuava a cruzar agoniadamente os lados da sala de estar. Ia uniformemente de um canto para o outro sem hesitar em parecer aflito ou neurótico. As únicas pausas eram esporádicas e estrategicamente posicionadas no centro da sala de frente a uma obra de arte – se e que aquilo pode ser chamada assim – contemporânea e feia, que um de seus filhos mandou em seu ultimo aniversário, para acender um novo cigarro a cada seis ou sete minutos. Esperava o carteiro com um telegrama, uma ligação, talvez uma visita. Já estava cansada do que passara a vida vendo pelas lentes incolores que já não funcionava como antes, a visão já se recusava a praticar suas tarefas, e suas mãos constantemente tremulas, mal eram capazes de segurar o copo no qual passava o café pelas manhas. O marido se fora há mais de 15 anos, não conseguira conviver com o desmazelo, o desapego que nunca a deixara se entregar. Os filhos a culpavam por seus próprios fracassos e desprezavam todos os sacrifícios que havia feito por eles durante o período que com ela ficaram. Mandavam cartões no natal, flores nos aniversários, mas nunca a visitavam, não iam sequer suas esposas exemplares ou suas crias gordas. O telefone nunca chamara e a carta também não chegou. Não era o que merecia. Mas continuou daquela forma até que um deslize a levasse até o chão e não a tirasse mais dali. E, sem mais explicações,  em um belo dia, ela sumiu.

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Grafique-se

Gráficos geralmente são muito chatos, e ninguém em sã consciência há de discordar. Mas com algumas informações que você fornece para o portal Ionz, é gerado um gráfico informativo sobre você, simples, divertido e uma graça.

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O meu é esse ai. Se gostou e quer fazer também o seu, acesse ionz.com.br e depois de alguns cliques, é só salvar o seu.

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Super heróis sensíveis demais

Sim, o título do trabalho é Super Emo Friends, mas o termo acaba virando pejorativo em algo tão legal… Vale a pena readaptar e conferir a criatividade do designer J. Salvador na hora de mexer com as feridas de nossos heróis de histórias em quadrinhos favoritos.

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O Mercado da Inveja

De vício a pecado capital; desejo, exagero e cobiça. Apesar de ser um sentimento dos mais desprezíveis do homem, a inveja é algo que está presente desde a invenção da propriedade, e acompanhou, evolutivamente, o crescimento do homem contemporâneo. Faz parte da natureza humana a competição e a tendência à supremacia de querer ser melhor do que os demais em diversos sentidos. Desde a privatização e a invenção do capitalismo, a inveja é também uma vertente da necessidade de auto-afirmação, que disputa a conquista de riqueza, status e poder.
De certa forma, a inveja acaba se evidenciando cada vez mais em um mundo que sobrevive da cultuação de imagens e que menospreza a honestidade e os verdadeiros valores humanos. É dos mais poluentes combustíveis que move o mundo: violência, ódio, imoralidade. A globalização nos abre portas para invejarmos de tudo: fama, dinheiro, carros, relacionamentos, inteligência, talento, habilidades, aparências… Contrapondo a necessidade de precisarmos sempre mais das coisas supérfluas, nos deparamos uma alternativa oposta a desejar o que não podemos ter ou aquilo que não podemos ser.
Vivemos do materialismo, da conquista dos bens físicos, mas ocultamos a real necessidade da consciência de que o verbo ter não necessariamente significa ser feliz. Cercados de sentimentos autodestrutivos, almejar, querer, comprar produtos em troca de sacrifícios, corrompem a essência do ser humano, quando a felicidade não implica status ou poder, e sim o exercício da simplicidade.

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Lua Nova em 4 atos

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Adicione vampiros purpurinados e gritos adolescentes – muitos gritos. É basicamente isto.

Imagem via deviantart.net

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É isso mesmo, Seu Amaro.

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Cinco e trinta da manhã. Religiosamente, Seu Amaro já estava de pé para não correr o risco de perder a primeira remessa de pães quentes da padaria na esquina. Esperava até as sete pelo jornal local – não poderia ficar deslocado das conversas de bêbado no boteco durante os jogos de cartas – enquanto a água fervia para fazer o seu café forte. Há doze anos era sustentado pelo governo. A aposentadoria, a esmola, arcava com a maior parte das despesas, e o resto era reservado para os jogos. Exerceu o ofício de professor por mais de trinta anos. Sempre preferiu se relacionar com os números a com as pessoas. Mas estes o traíram nos últimos meses. Já havia vendido o carro velho por uma mixaria. O próximo então seria a casa. Não era fácil sustentar-se sozinho. Não era fácil viver sozinho. Mas foi o império solitário que construiu por si só. Seria mais fácil se Maria ainda estivesse ali… Mas ela se fora há muito. Tudo se reduzia a nada. Cansaço. O mundo já não era mais tão atraente. Mas a vida é isso mesmo, Seu Amaro. Você já devia saber. Em todo caso, Seu Amaro, eu ainda tenho duas ou três balas carregadas em meu revólver. Mas isso é só o senhor que sabe.

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Music Sunday #04

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Diálogo Imaginário II

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- Costumávamos ser um belo casal. Até Yoko teria inveja.
- É… eu sei. Mas não é sua culpa. Isso acabaria acontecendo.
- Claro que não é minha culpa. Foi o tempo. Distanciamos-nos, ficamos tão frios a ponto de quase nos congelarmos. Admita, precisamos encarar a verdade.
- Acho difícil mudar isso. Mas sinto saudades de nós como um só.
- Eu sinto falta do seu cheiro impregnado em minhas roupas, dos seus livros despedaçados pela casa, dos recados embaixo do meu travesseiro. Mas não diria que sinto saudades. As coisas estão indo bem para mim. Talvez, se você tentar, se tornem assim pra você.
- Eu nunca viveria bem sabendo que deixei você partir. As flores de plástico que deixou sobre minha escrivaninha me fazem lembrar aquela noite.
- Foram muitas.
- Não sei ao certo. Detalhes nunca me fizeram muita diferença.
- Talvez esse seja o problema.
- É, mas talvez…
- Estou atrasada. Não quero perder mais tempo sendo culpada. Você já teve tempo suficiente para isso.
- Tudo bem, a gente se encontra.
- Espero que não. Adeus.

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Dia da Consciência Limpa

Um sistema falho trabalha com uma política de compensação. Três séculos de escravidão ressarciado por um feriado? É irônico querer prover a desegregação de tal maneira: segregando. Uma maioria com sensação de minoria. A solução? Cotas, políticas de beneficiamento. É por ai que fica a dignidade e o orgulho. Não passa de uma das mais violentas formas de discriminação. Não é nenhuma certeza cientifica, mas há gente boa e gente ruim. De todo jeito: toda cor, todo credo. Uma pigmentação, um tom na pele não determina um caráter.
Em um Brasil de contrastes, de preto no branco e o mesmo sangue vermelho fluindo pelas veias. Consciência em um país como esse… Pra que? Celebramos mais é a imoralidade;  a colocamos  em nossos governos, em nossas ruas, nas televisões, em nossas casas. Sim, consciência é o que falta. Negra, branca, verde, amarela. Preconceito da auto-intitulada sociedade moderna? Somos então, tão civilizados, mas coitados, tão alienados. Atrasamos ao próprio processo de evolução, não sabemos dos problemas sociais. São datas, são atalhos… Lamento ter que fazer  tal desfeita, mas a partir de agora, o dia de hoje tem para mim um novo nome: o Dia da Consciência Limpa. É o que falta, mas estamos ocupados demais para sermos sujeitos a perceber.

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Reforma

Opaca. Assim era sua visão. As lentes arranhadas jamais seriam capazes de corrigir a tal imperfeição. Perdia tempo no trabalho e adiava o máximo o seu retorno ao cárcere privado. Quando chegava à pequena e velha casa, atirava o chapéu sobre os livros na escravinha. Já se tornara um ritual. Esfregava os olhos. Queria sempre ter certeza de tudo que vira. Deitava-se sobre a estreita cama – há dias já não arrumada -, e se observava a não se importar com nada, contanto a si mesmo. As pupilas já dilatadas acompanhavam o rasgo que seguia na parede descascada. Ia até o teto, e então voltava ao chão e aos papéis nele espalhado. O que aconteceria se aquela fenda, por um instante, abrisse? Toda sua grandeza ou toda sua insignificância se reduziria a um desmoronamento ou seu reconhecimento póstumo o levaria a ser eterno, graças a algo que nunca vivera? Afinal, não era tão miserável como aparentava ser. Poderia ser mais gentil, se as pessoas fossem mais espertas. Por um instante, a rachadura permaneceu ali. Mas só por aquele instante. No dia seguinte, lá estava com a massa corrida, pronta para tampar os buracos. Pelo menos o de sua modesta moradia. Talvez sua visão já não fosse mais tão opaca… Mas o mesmo não poderia ser dito sobre sua existência.

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