
Talvez a vingança de Tarantino não esteja em aniquilar nazistas queimando-os em um cinema. Pode soar pretensioso para um americano do Tennessee querer fazer um filme reinventando a segunda guerra e terminá-lo anunciando que acaba de fazer a sua obra-prima, mas para Quentin, não é.
Saber colocar todas (ou quase) as suas marcas em um filme descontextualizado ediferente de tudo que já fez não parece ser algo fácil. Mas os diálogos tensos em lanchonetes, substituidas aqui por pubs e restaurantes e as referências pop-nerds ao cinema dos anos 30 encaixam perfeitamente onde quer que sejam colocados.
É bom ver que certos riscos valem a pena. Tarantino apostou em uma nova fórmula quando a antiga, talvez já batida, rendeu clássicos no currículo de Tarantino como Pulp Fiction e Reservoir Dogs. E com consciência, conseguiu orquestrar o seu longa brincando com elementos e um elenco de invejar qualquer diretor com alguma aspiração a blockbuster.
É difícil agradar quando se têm um público fiel, ainda mais, provenientes de clássicos cultuados como Kill Bill e mais ainda, levar um público notável ao cinema para ver um filme de arte. Bastardos Inglórios, o sétimo filme de Quentin Tarantino, só não podia deixar de ser polêmico. Dividiu opiniões de críticas, fãs e leigos do cinema. Alguns clamam que Tarantino finalmente colocou tudo que aprendeu atrás dos balcões da locadora que trabalhou em Knoxville, outros criticam os exageros que o diretor se dá o luxo.
Ainda assim, contestam que Tarantino errou ao afirmar que Bastardos Inglórios é sua obra-prima. Apontam Pulp Fiction como seu principal vilão, porém, ambos os filmes tem grandezas cinematográficas completamente divergentes. São importantes em medidas diferentes, e é difícil compará-los em seus próprios contextos.
Tarantinamente, o filme é divido em 5 partes, típico dos seus longas. A primeira cena, já mostra o que se pode esperar do Coronel Hans Landa, numa memorável atuação de Christoph Waltz, o sádico e sarcástico, porém não menos divertido e inteligente perseguidor de judeus. O enquadramento e movimentação da câmera seguem o ritmo emocional do filme, em uma combinação sublime. A judia francesa Shosanna que teve sua família perseguida pelo Hans Landa que se refugia como gerente de cinema tem o seu destino cruzado por insistência do soldado alemão Frederick Zoller, interpretado por Daniel Brühl, acaba tendo sua oportunidade de queimar nazistas, quando o ministro da propaganda nazista Goebbels faz sua premier no seu cinema. Com o destino cruzado com Aldo The Apache, o Urso Judeu e a sua trupe, os anti-heróis liderados por Brad Pitt também planejam sabotar a estréia com ajuda da atriz britânica Bridget von Hammersmark, vivida Diane Kruger. Entre alternâncias dos conflitos, a trama se desenvolve com uma beleza estética inigualável e a violência que chega a ser charmosa em certos pontos.
Bastardos Inglórios pode não agradar a todos por ser uma fábula, uma reinvenção e também um devaneio da complexa mente de Tarantino. A complexidade de mesclar o pop e o cult pode até confundir quem não está acostumado com tal linguagem cinematográfica, mas o filme é um verdadeiro presente para quem gosta mesmo de cinema.
