Torradas Tostadas

Archive for Setembro, 2009

Intemporário

Intruso, desconvidado
Já não me perguntas se te quero aqui
Caótico, desequilibrado
Arromba a porta,
Parte sem se despedir.

Me desperta pela madrugada
Deixa um bilhete sobre a mesa,
Insiste em existir.
Resiste invulnerável,
Despede-se sem partir.

Perturbas-me, me roubas a solidão
Não me dizes aonde queres ir
Não me ofereces companhia
Não me desperta compaixão
Deixa apenas uma lacuna, um vazio,
Que eu permito estar ali.

posted by Nina R. in Poemas and have Comments (11)

Brad Pitt diz:

Peitinho!

Peitinho!

posted by Nina R. in Cinema, Inutilidades and have Comments (9)

Azia Cerebral

Queima algo perto do peito. Não chega a ser no coração, mas é um incômodo constante. Talvez sejam as doses exageradas de realidade, as pílulas da verdade acidentalmente consumidas descendo a seco por entre a garganta inflamada, efeito colateral do otimismo que veio sem bula. Talvez eu esteja regurgitando as ilusões com as quais me nutri, talvez ingeri uma quantidade de esperança que meu organismo não foi capaz de suportar. Meu metabolismo pode estar desacostumado a frases se revirando no estômago, meus olhos podem ter cegado pelos raios que ultrapassam o negativo. Talvez eu não queira me acostumar a algo a qual sou obrigada a me expor, meu organismo não se permite admitir que necessita do surrealismo vencido que como falso amor confundi. Talvez eu só não esteja imune, talvez, um pouco impune pelos crimes que minha mente é capaz de cometer. O meu suco gástrico de palavras vomitadas se recusa a aceitar esses corpos estranhos que implicam em corromper a minha essência. Não me importa se é burrice ou ignorância, faço questão de continuar a distribuir minhas várias personalidades efêmeras sem oferecer… Alguém me traga um eficiente sal de frutas, por favor.

posted by Nina R. in Devaneios and have Comments (7)

A procura (e o aonde)

walkingaway

- Na verdade, percebi a porta se fechar, mas preferi continuar com a minha vida ‘normal’. Sei que tendia para os vícios, mas por sorte, os menos malditos. O constante reflexo da tela azulada nos olhos já cansados daquilo tudo que viam, encontrando extras – talvez as únicas – de prazer nas desgraças que a rodeavam. Qual entretenimento melhor se não a decadência? Em uma constante queda, sem partículas aceleradas ou nem se quer retardadas, tomava direção ao mais longo caminho que não leva ao certo a nenhum destino. Fui eu mesmo quem fechou aquela porta e fiz questão de perder as chaves no bolso de alguma calça. O apreço por estranhos e desconhecidos, a observação usual e um tal desequilíbrio por viver da imagem sem ser esteticamente interessante propunha a uma série de compensações. Mas nenhuma daquelas imagens entretinha a muita gente e seu fiel público se restringia a mendigos moribundos que aplaudiam apenas por ganharem minutos de atenção. Eram na verdade ótimos espectadores, falavam exatamente o que ela queria ouvir, riam de tudo e concordavam com a cabeça em movimentos quase uniformes. A última coisa que me lembro de ter escutado daquela moça foi que sairia por ai em busca de um amor qualquer, mas deixou um endereço caso alguém viesse a procurar. Já mandei algumas correspondências atrasadas, mas nada chega há tempos. Lembro que não gostava de flores. Mas pode lhe mandar um buquê de magnólias.

posted by Nina R. in Contos and have Comments (4)

Você me apagaria?

Bom mesmo seria se pudéssemos apagar algumas pessoas de nossas memórias, como se alguns momentos nunca existiram, e não precisássemos carregar tantas mágoas, tantos rancores. Bom mesmo seria se as pessoas não deixassem tantas lacunas vazias em nossas vidas, como se elas existissem apenas para nos completar e preencher espaços em branco. Bom mesmo seria se não precisássemos tanto do tal apego, não sofrêssemos tanto em silêncio, não déssemos tanto valor aos pequenos detalhes, as ações impulsivas, as promessas perdidas. E bom mesmo, seria se a verdade fosse só o que nos sujeitamos a selecionar, a acreditar, que a vida não seguisse um roteiro cronológico, que todos tivessem a chance de tentar, se as tramas não passassem de deslizes melancólicos, e se nenhum monólogo fosse tão solitário com um só a falar. Bom mesmo seria se todo brilho fosse eterno, se toda prece fosse ouvida, e toda graça, atendida. Bom mesmo seria se todos estivessem exatamente onde queríamos estar, esquecidos pelo mundo que nos esqueceu, pegando trens sem destino, perguntas impertinentes, e trocando simples sorrisos, com alguém que realmente quiséssemos nos lembrar.
Forgotten_Sunshine_by_clandestinekidx33

posted by Nina R. in Contos and have No Comments

Veloz

Em um movimento de aceleração constante, a velocidade do mundo nunca diminui e nunca foi tão rápida. Os carros correm, as notícias se espalham em segundos. Até as batidas das músicas, as partículas aceleradas para criar, descobrir. Os alimentos prontos em três minutos, até as relações mais sem graça, os jogos, as trapaças. Multiplicar, dividir, somar, mentir, viver, amar, subtrair. Tecnologia do avanço mas ninguém aprende a controlar o tempo. Aprendemos tudo tão rápido!, emburrecemos mais rápido ainda. Os jornais são rápidos, os filmes, coitados, não podem ocupar muito do corrido dia. Envelhecemos rápidos, andamos apressados, mas alguém sabe aonde vamos chegar?

posted by Nina R. in Devaneios and have No Comments

Sobre o (meu) ser

nnn

O processo mais doloroso está em se limitar. Tudo pode se resumir às cartas que não escrevi, aos amores que nunca vivi, aos bastardos que não perdoei, aos personagens que jamais criei. Todos são parte de mim como um só, coletivo. As palavras que não escrevi nem proclamei, as pessoas que fiz questão de afastar, as desculpas rancorosas, as aventuras atiçadas no fundo da gaveta. Tudo isso sou eu. E eu sou. Sou de carne, sou de alma, sôo pretenciosa, sôo egoísta. Mas nunca deixo de ser. Frágil como uma boneca russa, forte como aquele que carrega o planeta nos ombros. Se o mundo parecer gigante, posso ser tão grande quanto ele.

posted by Nina R. in Devaneios and have No Comments

Despertador

Acordei a tempo de ter que ver-te partir com uma expressão apática e sutil. Na noite anterior, riamos das madames exibindo suas crias gordas  e cabeçudas como troféus mal acabados. Fazíamos pouco caso daquelas pessoas que tanto desdenhávamos, dos lugares desprezíveis que freqüentávamos, quando nossos amigos imaginários não rondavam desnorteados. Acordei a tempo de ver-te consentir com meu silêncio,
retalhar meus sentimentos com apenas um simples olhar. Na noite
anterior, com estes mesmos olhos de segredos e de desejos, observávamos  minuciosamente o tilintar os talheres, o bailar dos dedos nas violas
desafinadas e os flertes desajeitados que pairavam sobre o ar. Acordei a tempo de me lembrar o quanto quis que alguns sonhos nunca acabassem e algumas memórias nunca me perturbassem. Na noite anterior, esgotávamos
todas possibilidades do improvável, do imprevisível, enquanto o orgulho me corroia na mesma intensidade que o (ou a falta de) amor. Não  passava de uma grande ironia, e acordei a tempo de me lembrar como o
seu sorriso cínico me agredia mais que palavras ou fortes pontapés, mas  o quanto eu relutava para nunca me ver livre dele. Então, eu simplesmente acordei.

2573849718_e65d84bc6f

posted by Nina R. in Contos and have No Comments

À luz de velas

vela
Primeiro, a tarde fechada com ensaios de gotículas pairando sobre a cidade cinzenta. A melhor parte do dia; nem cedo, nem tarde, surpreendida por uma chuva fira. A antítese em forma sincronizada, coreografada por estranhos por estranhos – que costumavam ser amigos – alienados como animais, de outra terra, de outro mundo. O caminho de volta, as luzes amareladas, o som e o murmurro de um poeta, o aplauso dos trovões para as linhas trêmulas e desordenadas, como a única forma constante em algumas ruas dali.
O conforto e a satisfação, iluminados por uma vela oscilante, o silêncio inspirador e o prazer de pontuar uma última frase sem se quer ter chegado ao fim. É algo fascinante, de fato, mas infelizmente, acabara ali: um bilhete sobre a mesa dizendo “adeus, não voltarei mais aqui”.

posted by Nina R. in Contos and have No Comments

Sr. Medíocridade

Talvez, pior que seus erros, fossem só as tentativas frustradas de justificar por eles. Passando pela natureza egoísta até a ácida ignorância adquirida com o borbulhar da vida plástica e a indiferença que rondava por ali por muitos anos, todo tipo de resposta já havia sido testada.
A negligência em manchas de tinta preta nas folhas brancas pautadas de azul, nada jamais alteraria o que ficara registrado. Uma vidinha sempre mais ou menos, tendia para o medíocre na maior parte do tempo e mutilava qualquer vestígio do que pudesse se quer se tornar um pouco extraordinário. As possivéis surpresas eram rotinas, e a rotina era tão deprimente que seria capaz de sufocar alguém em uma câmara de ar. O sentimento de culpa impedia qualquer tentativa de mudança. A falsa esperança enchia seus pulmões de impactos decorados, esparramados no chão da garagem corroída. Todas falas de clássicos esquecidos, vagando pela maior parte de suas madrugadas insones, como se algum diálogo fosse realmente real. Entre a insatisfação e a apatia, ele permaneceu.

posted by Nina R. in Contos and have No Comments