Intemporário

Intruso, desconvidado
Já não me perguntas se te quero aqui
Caótico, desequilibrado
Arromba a porta,
Parte sem se despedir.

Me desperta pela madrugada
Deixa um bilhete sobre a mesa,
Insiste em existir.
Resiste invulnerável,
Despede-se sem partir.

Perturbas-me, me roubas a solidão
Não me dizes aonde queres ir
Não me ofereces companhia
Não me desperta compaixão
Deixa apenas uma lacuna, um vazio,
Que eu permito estar ali.

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Azia Cerebral

Queima algo perto do peito. Não chega a ser no coração, mas é um incômodo constante. Talvez sejam as doses exageradas de realidade, as pílulas da verdade acidentalmente consumidas descendo a seco por entre a garganta inflamada, efeito colateral do otimismo que veio sem bula. Talvez eu esteja regurgitando as ilusões com as quais me nutri, talvez ingeri uma quantidade de esperança que meu organismo não foi capaz de suportar. Meu metabolismo pode estar desacostumado a frases se revirando no estômago, meus olhos podem ter cegado pelos raios que ultrapassam o negativo. Talvez eu não queira me acostumar a algo a qual sou obrigada a me expor, meu organismo não se permite admitir que necessita do surrealismo vencido que como falso amor confundi. Talvez eu só não esteja imune, talvez, um pouco impune pelos crimes que minha mente é capaz de cometer. O meu suco gástrico de palavras vomitadas se recusa a aceitar esses corpos estranhos que implicam em corromper a minha essência. Não me importa se é burrice ou ignorância, faço questão de continuar a distribuir minhas várias personalidades efêmeras sem oferecer… Alguém me traga um eficiente sal de frutas, por favor.

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A procura (e o aonde)

walkingaway

- Na verdade, percebi a porta se fechar, mas preferi continuar com a minha vida ‘normal’. Sei que tendia para os vícios, mas por sorte, os menos malditos. O constante reflexo da tela azulada nos olhos já cansados daquilo tudo que viam, encontrando extras – talvez as únicas – de prazer nas desgraças que a rodeavam. Qual entretenimento melhor se não a decadência? Em uma constante queda, sem partículas aceleradas ou nem se quer retardadas, tomava direção ao mais longo caminho que não leva ao certo a nenhum destino. Fui eu mesmo quem fechou aquela porta e fiz questão de perder as chaves no bolso de alguma calça. O apreço por estranhos e desconhecidos, a observação usual e um tal desequilíbrio por viver da imagem sem ser esteticamente interessante propunha a uma série de compensações. Mas nenhuma daquelas imagens entretinha a muita gente e seu fiel público se restringia a mendigos moribundos que aplaudiam apenas por ganharem minutos de atenção. Eram na verdade ótimos espectadores, falavam exatamente o que ela queria ouvir, riam de tudo e concordavam com a cabeça em movimentos quase uniformes. A última coisa que me lembro de ter escutado daquela moça foi que sairia por ai em busca de um amor qualquer, mas deixou um endereço caso alguém viesse a procurar. Já mandei algumas correspondências atrasadas, mas nada chega há tempos. Lembro que não gostava de flores. Mas pode lhe mandar um buquê de magnólias.

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Você me apagaria?

Bom mesmo seria se pudéssemos apagar algumas pessoas de nossas memórias, como se alguns momentos nunca existiram, e não precisássemos carregar tantas mágoas, tantos rancores. Bom mesmo seria se as pessoas não deixassem tantas lacunas vazias em nossas vidas, como se elas existissem apenas para nos completar e preencher espaços em branco. Bom mesmo seria se não precisássemos tanto do tal apego, não sofrêssemos tanto em silêncio, não déssemos tanto valor aos pequenos detalhes, as ações impulsivas, as promessas perdidas. E bom mesmo, seria se a verdade fosse só o que nos sujeitamos a selecionar, a acreditar, que a vida não seguisse um roteiro cronológico, que todos tivessem a chance de tentar, se as tramas não passassem de deslizes melancólicos, e se nenhum monólogo fosse tão solitário com um só a falar. Bom mesmo seria se todo brilho fosse eterno, se toda prece fosse ouvida, e toda graça, atendida. Bom mesmo seria se todos estivessem exatamente onde queríamos estar, esquecidos pelo mundo que nos esqueceu, pegando trens sem destino, perguntas impertinentes, e trocando simples sorrisos, com alguém que realmente quiséssemos nos lembrar.
Forgotten_Sunshine_by_clandestinekidx33

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