Diálogo Imaginário

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- Moça, me vê dois chicletes de canela para disfarçar o gosto da solidão, do meu exílio, a amargura da minha negação. Sei que é o sabor favorito dela, embora não necessite de muito, já que a ganhei com um sorriso, e talvez, se preciso, um picolé de limão.
- Meu querido, só você não vê o que é preciso, a sua companhia já a trás inspiração! A exalta, em exstâse, amor, paixão, quase em combustão. Mesmo que distante, não duvide, conseguira um belo quarto, no mais nobre hotel de seu coração!

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Feliz Natal

Ele nunca foi de se importar com muitas coisas. Nunca gostou de muitas pessoas, e despereza a maioria delas. Na verdade, quase todas. Não teve filhos, não gostava de crianças e ninguém seria mazoquista o suficiente para se relacionar com alguém como Gregor.
Talvez aquela não fosse a noite mais fria do ano, mas era a mais cruel de todas. Vagando pela rua 7, encontrou um único bar aberto em um raio de 8 quadras. A decisão de dizer o que pensava o tornara alguém cruel e impiedoso. Por ser alguém mais dotado de certa racionalidade e realismo, achava que podia ser arrogante por direito com todos. Esteve errado várias vezes, mas sua auto-suficiência era incômoda e agonizante e o impedia de admitir várias vezes; ele tinha que viver com isso. Dentre a porta rangendo e o silêncio pertubador, Gregor sentou na última cadeira em frente ao balcão, onde a iluminação favorecia o ângulo esquerdo de sua face e camuflava os sintomas de sua insônia do mês passado. Pediu uma dose de café – havia parado com o álcool desde o último incidente – enquanto observava as luzes vibrantes e coloridas do pinheiro de pequeno porte bem próximo ao seus olhos cansados. A garçonete, que trocara a noite em família por uns trocados a mais no fim do mês, resmungou:
- Nem sempre a solidão é uma boa companhia.
Gregor olhou a sua volta, procurou um outro possível interlocutor para o monólogo da moça.
- Você está falando comigo?
- Na verdade não.
Virou as costas e continuou a contar o dinheiro do caixa. Gregor deixou uma nota embaixo do copo amarelado e retornou a sua odisséia de volta ao seu próprio calabouço. Terminou a noite com um telefonema no meio da noite. Mas era engano.

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(In) Concreto

Em uma cidade de 12879 habitantes, você tinha duas opções: levar uma vida medíocre e alienada ou se fechar em um mundo recluso e próprio. E não havia meio termo para Anita. Na verdade, não havia nada além de seus cadernos amarelados e uma única sala de exibição de 54 lugares. E ela criava. Criava lugares, histórias de amor, personagens fantasmas e versos curtos. Criava quase tanto quanto respirava. Suas criações tinham vida própria: eram seu legado eternizado deixados no fundo de uma gaveta. Até a luz da lâmpada incandescente era uma máscara crucial em seu teatro de marionetes. Anita vivia rodeada apenas de si mesma. Achava que tudo que fazia era uma incrível arte. Mas a maioria era descartável, seus finais eram sempre drásticos demais. Anita não se tornou uma memória ilustre nem foi eternizada, mas seu nome continuou no cimento mal acabado da esquina por um bom tempo.

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Sinfonia dos Pardais

D’entre folhas secas
E um céu d’agosto sem cor
Interrompia a orquestra de buzinas,
A sinfonia sem maestro,
Um gorjeio sem pudor…

D’entre penugens enferrujadas
Uma prece silenciada,
Quase sem louvor,
Talvez saudando aos animais…
Não creio, não é possível
Que aquela seja uma canção dos exilados,
Uma canção dos pardais!

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