Crises (Im)produtivas: Bloqueio Parte II

Geralmente minhas crises existenciais me rendiam bons textos. Parece que quanto mais tento e quanto mais escrevo, pior meus textos saem. Ou mais exigente comigo mesma eu fico. As vezes exigo mais de mim do que o mundo realmente precisa, e se é que ele precisa de algo. Meu professor de história uma vez disse que para combater um problema, precisamos buscar a causa dele, sem ir direto as soluções. E acho que o desencadeou minha série de perguntas sem respostas interrogadas na minha mente, foi uma dessas aulas. Estavamos falando sobre o Socialismo. Karl Marx, Engels e suas teorias, a dialética, o conflito de opostos. A tese, a antítese, e a síntese. O fato de que o mundo não é um fenômeno acabado, e sim em constante transformação. Até ai, eu concordo: é óbvio e incontestável. Mas então chego em outras questões: a inconstância, a incerteza, e todos os outros ins+adjetivos possíveis, e só então na destruição e no caos. Eles são completamente necessários: o ‘germe’ da destruição está em tudo. Mas destruição adquire um significado pejorativo, não devia ser visto como algo ruim, e sim como uma transição. A destruição faz parte da criação. Não tem como criar algo sem acabar com uma outra coisa. Ainda no barco da incerteza, chego em Nietzsche, que diz que não há fatos eternos, assim como não há verdades absolutas. Se não existem verdades absolutas, em que acreditamos? E se não somos o que somos, e sim o que não queremos ser? É a mesma coisa que fuzilar tudo que você já aprendeu até hoje e enterrar no quintal, sem nenhuma cerimônia. Ou seja: nós precisamos da destruição, e porquê não da auto-destruição? Somos incostantes e irreais ao ponto de estarmos nos destruindo ao invés de nos construindo a cada dia? E só então chego onde queria: a minha falta de produtividade seria a destruição dos meus sentidos ou a construição de um nível elevado de exigência? Concluo meu pensamento com Thomas Mann. ”O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever”. Espero conseguir dormir depois dessa.

Batida Irracional

O leite derramou,
O café acabou,
O copo quebrou,
O lápis desgastou,
A página rasgou,
O carro bateu,
A sinfonia desafinou,
A janela fechou,
Suas palavras o vento carregou,
E só então o amor cessou.
E o que restou…
Nem se quer existiu.

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O tempo não era um aliado de Trevor Reznick. Passara seus últimos dias em um porão imundo, rodeado cartas nunca enviadas e velhas fotos. Ele havia se tornado um escravo de si mesmo, e seu passado o perseguia incansavelmente a 150km/h até destrui-lo por inteiro. As inúmeras garrafas vazias e os ratos correndo entre as estantes de livros faziam um cenário pertubador. Trevor havia se corrompido. O mundo o corrompeu. Ele corrompeu o mundo. Mas ele já havia feito escolhas. Escolhas erradas que já não tinham mais volta. Sua existência tinha sido em vão, sua vida era plástica e descartável, insignificante. Vozes o atormentavam, e ecoavam na madeira antiga como discos arranhados. Só havia um meio de silenciar seu sofrimento, e nem disso ele foi capaz.

As palavras decoradas ecoavam repetitivamente diante do espelho no quarto vazio. O discurso ensaiado nunca sairia, por mais que fosse contra sua vontade. Os vícios já não podiam ser mais sustentados: o maço vagabundo acabou, a garrafa já estava praticamente vazia, e das mulheres amadas, só restavam as memórias das prostitutas que ele já não podia mais pagar. Ele havia falhado em tudo. Perdeu o emprego nas bebedeiras madrugada a fora, perdeu o carro velho no jogo de cartas, perdeu a dignidade num beco qualquer. Perdeu até a si mesmo, na própia decadência, no fracasso, na tentativa frustrada de ser alguém, e não só um fantasma vagando pelas ruas. Não havia mais nada ali, a não ser o resto de whisky que descia a seco enquanto suas derrotas refletiam aquilo que havia se tornado.

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