Se não fosse eu quem te contasse as novidades, você provavelmente não acreditaria. É incrível como as coisas mudam drasticamente em um espaço relativamente tão curto de tempo. Eu sinto a sua falta. Ela dói em mim em todos os cantos da casa, em todos os ossos do meu corpo. É contínua. Seu sorriso amarelado pelos inúmeros cafés que provamos pelas tardes deixa um gosto amargo em minhas manhãs. É como pedir um expresso duplo mesmo sabendo que não há açúcar que o adoce suficientemente para torná-lo bebível. E no auge do desespero, entorna-lo queimando a garganta por inteiro, e enquanto entre lágrimas e risos discretos, lembro-me dos abraços apertados, que duravam o tempo do alarme do portão disparar. Pensei muito no que queria te dizer. Tenho visto alguns filmes interessantes, escutado músicas legais, andado por ai com companhias agradáveis. Mas não tenho tanto assim o que falar. Eu posso até estar feliz, posso até estar realizada… Mas nunca mais estarei completa.
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Caixa Preta
Isso não são horas! Apague a luz e guarde essa caixa.
Quem nesses dias se interessa por… memórias? Versos recém-escritos, desenhos mal acabados. Romances antigos em frascos vazios, embalagens rasgadas, o verão, o frio… As lembranças monopolizadas, a primeira noite de lua cheia, a dor escancarada e exposta, injetada na veia. Guarde essa caixa, ela é grande demais, ela é pesada… Mas não ouse dizer que não serve para nada. Só você mesmo para me fazer carregá-la para todo canto, mas que essa história toda tem o seu encanto… Ah! Ninguém há de negar. 
Prólogo
Seria extremamente desumano caso eu não amaciasse os novos calçados antes de correr uma maratona. Os calos, as bolhas, os danos, certamente não seriam irreversíveis, mas sem duvidas, levariam um tempo considerável para se regenerarem – ainda que nunca fosse por inteiro. Tenho que afagar as paginas que escrevo antes que mutile-as permanentemente, Agora sim, é irreversível. As pautas carregarão até que o carbono se desintegre no aterro sanitário mais próximo, ou que as traças descubram o esconderijo privilegiado no lugar mais alto de uma estante. É preciso preparar o destino para sua sina. Pobres daqueles fadados a isso ou aquilo. Mas já que estão aqui, de nada custa o consolo, a caricia indevida antes que eu acabe com elas por inteiro. Só sabe-se que essas páginas conceberão palavras intensas, emergindo de um lado da massa cinzenta que esteve colorida demais. Ora trará uma insuportável euforia, ora a dor será tão grande que é impossível mesmo perceber. Não há um manual que dita o que sentir – seria bem mais fácil se existisse. A partir daqui, tudo é verdadeiro, embora nem tudo se faça tão real ou efetivamente concreto. Soa maldade avisar o que talvez nem esteja a caminho, mas todos precisam de preliminares. E termina-las… É gratificante.
“Tudo passa”
Por favor, não me venha com esta. E muito menos tente bancar o engraçadinho dizendo que somos todos passageiros – menos o motorista e o cobrador. De todos os clichês ruins que existem, este é o pior. Que tudo passa todos sabem. Mas burro é quem não pede carona ou tenta agarrar na carroceria daquilo que realmente quer. Porque alguém não diz pro cara que acabou de ganhar na loteria que um dia a grana acaba e que tudo passa? O seu relacionamento mal sucedido, sua demissão ou a morte do seu cachorro: passa. Ninguém precisa te lembrar o tempo inteiro que você está dando valor demais a banalidades. Enquanto isso acontece, tudo passa. E sim, pode até ser verdade: está tudo passando impetuosamente. Os outros, as oportunidades, o mundo. Até a uva-passa. Você deixou passar. Não teve garra suficiente para manter. Se passa sem deixar marcas, sem deixar cicatrizes, talvez nem devesse ter passado. O que vale a pena de verdade, não, não passa. Fica cravado na pele, na memória, no rosto. Então, diga-me qualquer coisa, menos que tudo passa. Não há maior blábláblá de perdedor. Se tudo passa, talvez seja a hora de você tirar umas férias na Transilvânia. Ou em algum lugar bem longe de mim: quem precisa dar uma passada, meu caro, é você.
Enquadrado
De repente, todas aquelas histórias, que viviam vagando pela minha mente cessaram. Onde foram parar todos os personagens hora muito complexos, hora suplicando por uma adjetivação mais adequada? Ninguém sabe dos seus paradeiros. Todos os dramas parecem clichês, e todos romances seriam caricaturas, diante da intensidade de sentimentos tão estrondosos. É difícil estar sob pressão (principalmente se interna). Todas as rimas soam pobres, todas narrativas perdem a graça. Os casais impossíveis de todos aqueles clássicos? Bobagem. Parece até uma realidade recém saída de um filme do Almodóvar. Poderia dizer que falta algo, mas mentiria: na verdade, sobra.
Billy, a barata
Se o amor pudesse ser um animal, seria uma barata. Um inseto sujo, repugnante, que causa náuseas e aversão. É esmagada e perambula na escória, se alimenta de restos, nunca é bem vinda. Mas por mais flagelada que esteja, sempre volta. Mesmo com tanto nojo, é capaz de sobreviver até a um ataque nuclear. E é um indício que, independente do que aconteça, ainda há vida pulsando por trás da carcaça imunda.

Script do início (ou do fim)

Se fosse fazer um filme, a primeira cena teria inicio exatamente as cinco e cinqüenta e cinco. Todos estão dormindo. Vozes aleatórias sussurram pelos fones de ouvido, pressionam-se contra as paredes e imediatamente retornam para assistir atentamente o nascer do sol. O vento dita o dançar dos galhos. Balançam e deslizam na mesma intensidade que os fios de cabelo que tampam o olhar curioso no batente da janela. O enquadramento é perfeito. Único e particular. Ninguém mais o vê, ninguém mais o observa. Um simples instante que caberia no bolso ou que encaixaria em inquestionável sintonia na estante de sonhos ou lembranças. Em um pote, carregaria os fechos de luz para os dias nublados. Por alguns minutos, a chuva chateia. É odiada até que se sinta o cheiro do café sendo coado, alertando o fim da solidão matutina. Com o dia já claro, a teimosia arrisca o atraso. O sol não se esconde mais timidamente entre as arvores dançantes. Os créditos sobem. Poderia ser o fim. É aterrorizante gostar de alguém.
Demissão em massa
Preciso de novos funcionários se quiser continuar funcionando no mesmo ritmo convencional. Há mais de uma década eles não têm uma folga sequer. E não os darei direito a aviso prévio, fundo de garantia, décimo terceiro ou seguro desemprego. Não param fins de semana ou feriados, mas dificilmente darei o braço a torcer. Não tenho culpa da incompetência alheia. Que arquem com a própria improdutividade, que comam brioche. Porque não fazem uma greve ou planejam uma revolução? Saqueiem o palácio do rei, enforquem os soldados traidores, tomem o poder com um golpe militar. Nunca pensei que eles fossem me decepcionar tanto. Porque o meu roteirista imaginário não tem reviravoltas como as do Almodóvar, um pôr-do-sol enquadrado por uma janela, um final revelador, surpreendente? Onde está a minha trilha sonora, a minha aurora, ou a minha hora, que os ponteiros esquecem de levar? Consumiram minhas frases de impacto, minhas piadas esgotadas, os livros estão corroídos, e um deles se quer pensou no final clichê para substituir a solução intragável que lá aticei. Os meus heróis, que nunca existiram, os meus curtas-metragens, tão longos, tão longe, que não passam de um vulto, atingido por um bombardeio no mar. Porque não mandam alguém negociar a divida interna, ou fazer uma analise sucinta dos períodos inúteis que venho a declarar? Enquanto nada muda, a produção continua escassa. Eles não vão mendigar socorro, talvez peçam a mim um resgate, mas infelizmente, eu não poderei afortunar. Falta criatividade, falta sensibilidade. Alguém precisa colocar as máquinas no lugar.

Frustração
Queria revolucionar alguma coisa, fazer uma pouca diferença, ser capaz de mudar opiniões. Pregar a paz não armada, libertar um país da ditadura, estabelecer um acordo milagroso que salve o planeta do aquecimento global ou da chuva ácida. Queria cercar uma árvore prestes a ser derrubada, e deixa-la intacta por mais um século, impedir um assalto, doar um dos rins para alguém a beira de um colapso. Queria escrever um livro banal e ganhar um Nobel, descobrir a cura da aids, abrigar inimigos do estado em minha casa, reinar uma ilha de um homem só, poder falar de amor sem falar de dor, fuzilar hipócritas com uma arma de guerra, criar uma ideologia onde não há contradição. Mobilizar insensíveis, escrever uma boa poesia que um dia se torne música, fazer roteiros com reviravoltas inimagináveis, um filme sobre um desconhecido, registrar em um papel cada sorriso. Queria dar um abraço do qual jamais me soltaria, decretar o fim das regras, o fim da solidão, poder mostrar aos cegos, gritar aos surdos, a minha tamanha indignação. Mas estou aqui. Tudo que posso fazer é estourar meus tímpanos.

27/10
Porque não me mandou uma carta ou uma mensagem vaga? Um breve telefonema, só sua voz basta, um e-mail automático ou um frio recado esquecido na caixa postal, logo após de ser escutado. Um sinal de fumaça, umas palavras perdidas em alguma garrafa, uma tentativa frustrada de rima fraca, um buquê de tulipas, um novo conjunto de taças. Não pedi por amor, por saudade ou por carinho, um parabéns vazio, um bom dia servia. Algumas letras deixadas em um qualquer cantinho… Quando se tem pouco, qualquer tantinho basta, mas o tempo passa, e não me pergunte o porquê.

Sobre a autora

Nina Rocha Campos: humor, sarcasmo, filmes velhos, gírias antigas, rascunhos esquecidos, críticas ácidas, frases vagas, música barulhenta, café forte, alguns livros, chocolate meio-amargo e 17 anos bem vividos.-

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