Torradas Tostadas

Archive for the 'Contos' Category

Instantâneo

Tentativa frustrada de glorificar a miséria. Tempos escassos… Tempos difíceis. Enquanto preparava o miojo, ela acendeu algumas velas. Clichê barato. Massa, romance, e uma iluminação indireta. Três minutos depois, com o alarme do microondas e o momento certo para adicionar o tempero, veio também um novo ingrediente.
- Eu não te amo mais.
- Desde quando?
- Desde agora. Assim. Subitamente.

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Minha caixa torácica não é um compartimento vazio

- Qual é o problema? – Pergunta o médico ao rapaz que esperava uma resposta desde a madrugada de quinta-feira. Enquanto apontava para o peito, indicava de onde vinha o que tanto lhe afligia.

Dói aqui. É uma dor intensa, e angustiante. Porém, ela não é daquelas dores constantes. É um vai e volta que muito me incomoda, e é nos finais de semana que tende a piorar. Parecem na verdade mil facadas, e a cada respiração forcada, sinto como se estivessem a me queimar. Já não sei mais o que faço quando nem meus melhores maços são capazes de me aliviar.

Exames de sangue, rotineiros, pedido de histórico familiar. Qual seria a anomalia surpreendente que ninguém fora até então capaz de curar? Vieram especialistas, os mais famosos cardiologistas, mas nada justificava a tal insuficiência cardiovascular. Viver doía, mas por maior que fosse a dor, se recusava a se internar. Havia um mundo inteiro lá fora, e apenas uma pessoa disposta a o esperar.

Por fim, chegou um residente, que ninguém acreditara que trouxesse uma nova esperança, quando todos quase desistiram de tentar. Como um simples estetoscópio, surpresa e espanto quando a um coração resolveu escutar. O silencio pairou sobre a sala, e uma nova descoberta – como aquilo seria possível – assombrou a todos que por um nobre acaso estavam ali.

- Te afirmo, estou surpreso, é um caso raro, mas devo lhe notificar. Não há nada ai, você deve ter esquecido o seu coração em algum outro lugar.

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Enquadrado

De repente, todas aquelas histórias, que viviam vagando pela minha mente cessaram. Onde foram parar todos os personagens hora muito complexos, hora suplicando por uma adjetivação mais adequada? Ninguém sabe  dos seus paradeiros. Todos os dramas parecem clichês, e todos romances seriam caricaturas, diante da intensidade de sentimentos tão estrondosos. É difícil estar sob pressão (principalmente se interna). Todas as rimas soam pobres, todas narrativas perdem a graça. Os casais impossíveis de todos aqueles clássicos? Bobagem. Parece até uma realidade recém saída de um filme do Almodóvar. Poderia dizer que falta algo, mas mentiria: na verdade, sobra.6_large

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posted by Nina R. in Cinema, Contos, Devaneios and have Comments (3)

Script do início (ou do fim)

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Se fosse fazer um filme, a primeira cena teria inicio exatamente as cinco e cinqüenta e cinco. Todos estão dormindo. Vozes aleatórias sussurram pelos fones de ouvido, pressionam-se contra as paredes e imediatamente retornam para assistir atentamente o nascer do sol. O vento dita o dançar dos galhos. Balançam e deslizam na mesma intensidade que os fios de cabelo que tampam o olhar curioso no batente da janela. O enquadramento é perfeito. Único e particular. Ninguém mais o vê, ninguém mais o observa. Um simples instante que caberia no bolso ou que encaixaria em inquestionável sintonia na estante de sonhos ou lembranças. Em um pote, carregaria os fechos de luz para os dias nublados. Por alguns minutos, a chuva chateia. É odiada até que se sinta o cheiro do café sendo coado, alertando o fim da solidão matutina. Com o dia já claro, a teimosia arrisca o atraso. O sol não se esconde mais timidamente entre as arvores dançantes. Os créditos sobem. Poderia ser o fim. É aterrorizante gostar de alguém.

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Quinta Sinfonia

Havia algo que o prendia naquele lugar. Como se estivesse envolto em uma bolha, ou engessado na parede do quarto, era inútil rebelar-se contra o seu fadado oficio. Era mestre do nada. Fora dispensado do exercito após brigar com um sargento, e com a herança que recebeu do tio nunca teve necessidade de trabalhar. Levava uma vida mais ou menos, mas não se importava. Pagava as contas e nunca faltou vinho para o jantar. Casou-se duas vezes, mas não teve nenhum filho. A ultima esposa morreu de desgosto, e a primeira fugir para o México com o amante. Ele até pensou em sair para procurá-los, mas não compensaria o esforço. Nunca gostou de nenhuma delas, mas ambas eram eximias donas de casa. Enquanto vagava pelos bares, elas preparavam deliciosos bolos de laranja – seu favorito desde a infância -, e deixavam a cama feita, esperança de que amassassem os novos lençóis de seda. Ele ia sempre direto ao sofá. Aquela era uma grande casa para um homem só. Embora tivesse freqüentes companhias, o barulho da vitrola estragada que insistia em manter ecoava em todos os quartos e às vezes chegava à sala de jantar. Tentou vender o imóvel e migrar para um pequeno apartamento, mas todas as propostas de negócios valiam pouco demais. A solidão não mais machucava. Mas o rancor que cultivava pela única mulher que com ele não quisera se casar era alarmante. Recusou-o da primeira, da segunda, e da terceira vez. A ilusão dentro dele ainda a esperava. Sempre que tocavam à porta para entregar alguma cobrança, imaginava que ela estaria ali, de pé, do outro lado, segurando entre os dedos trêmulos o buquê de petúnias que a mandou em seu ultimo aniversário. Mas ela nunca veio. As noticias que vinham de um amigo em comum, que foi seu amante há tempos, e os endereços, que constantemente mudavam, eram as poucas coisas que restavam. Nunca perdoou o amigo. Como fora capaz de cometer tamanha atrocidade, tal adultério com alguém que o acolhia tão bem? Anos depois, soube que eles se casaram. Tirou o seu melhor terno do fundo do armário e disse, ao olhar-se no retrovisor do carro: “Eu sempre quis matar alguém enquanto escuto Beethoven”.

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Refeições

Pela manhã, já não há ninguém ao lado. Mas o café já está feito e sinto isso pelos corredores infestados pela sua ausência. Abandono o almoço requentado, intacto, como se esperasse por alguém. Tudo parece insosso, meus dias parecem sem gosto… E como se já fosse o fim, temo não ter com o que me preocupar. Se todas as coincidências são estipuladas, se todas as paixões são forjadas, o que me resta a falar? Não importa. Sei que chega, sei que volta, quando precisar falar sobre um bom filme, ou mesmo antes que eu termine meu monótono jantar. Deve estar tudo bem, ou pelo menos, irá ficar.

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Quarta

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Imagino-o inquieto, aflito por cada resposta, cada negação, refletindo o brilho azulado em suas vistas cansadas pelo tempo, acendendo um cigarro após o outro enquanto pensa, impaciente, em qual será sua próxima fala. Do outro lado, vejo alguém eufórico a cada palavra, fantasiando as vivencias que provavelmente não virão, planejando inúmeros escapes, todos em vão. De repente vem um silencio. Talvez não fossem capazes de demonstrar um afeto recíproco. Mas na falta do que dizer, admitiam que estavam em boa companhia. Ou pelo menos, eram ótimos atores. Forjavam um bem-estar que nunca tiveram com nenhum outro alguém, aprenderam com as frases que haviam decorado nas incontáveis madrugadas insones. Aguçava suficientemente a imaginação de tal forma que poderiam passar dias descrevendo seus planos de outono a dois. Me pergunto se em alguns anos lembrará dele – e de todos os outros. E me calo.

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Memórias de 94 – Parte II

Agora, seu nome foge a minha memória. Talvez eu me recorde depois, mas não acredito vá fazer alguma diferença. Retratei minha grosseria e o disse para se acostumar. Dali pra frente, e eu sabia disto, nossas brigas desnecessárias seriam extremamente comuns. Descobri sua inconstância aos poucos. No primeiro dia, almoçamos juntos. No segundo, fazíamos graça e jogos mudos com quem nos fitavam. Choramos a morte do Senna, desesperadamente lamentamos o suicídio do Kurt Cobain, juntos. E eu não gostava das musicas que ele escutava. Hoje, alguns daqueles barulhos são os únicos sons que consigo ouvir de verdade. Nós já não nos importávamos com os jogos de futebol ou com o aluguel atrasado do meu então vazio apartamento. Estávamos constantemente aprisionados naquele lugar, um no outro. As fugas periódicas não iam mais longe do que ao cinema na esquina de sua casa. Naquele ano conheci alguns diretores que vidravam o seu olhar de tal forma que nem eu conseguia, mas não me importava. Vi-me fascinada quando conseguiu escolher o meu lanche favorito sem minhas dicas ou opiniões. Mostrou-me alguns filmes, e eu o emprestava alguns livros. Nunca passara das primeiras páginas. Ia sempre direto as últimas folhas, me contava o final e tentava adivinhar o resto da história. Pergunto-me se também tentava adivinhar o desenrolar da nossa. Começou assim, do nada, e em pouco tempo éramos como duas metades da mesma pessoa. O ruim é que às vezes não gostamos de nós mesmos.
Nossas carcaças começaram a desgastar. O cheiro com que voltava do trabalho me irritava. Eu já não gostava de esperá-lo chegar para começar a minha jornada e a nossa dependência me incomodava demais. E nenhum de nós tinha coragem de enfrentar a verdade. E ninguém queria acreditar. Mas tentamos. Tentamos exaustivamente, tentamos até não podermos mais. Quando decidi partir, estávamos no cinema. Sai em meio uma cena qualquer, e deixei com ele tudo que tinha. Pela primeira vez, desisti. Seu cansaço não me alcançou. Pergunto-me em que estado o deixei: se respirou aliviado ou se lamentou e ruminou por alguns dias a minha permanente ausência ou que fim meus discos levaram. Hoje não sei o que faz ou quem ele agora é. Penso que o vi um dia desses, caminhando na multidão. Pensei em pará-lo e perguntar as horas. Mas dessa forma, nossa história não seria tão interessante a ponto de valer a pena contar-la. Talvez voltemos a nos encontrar ou ainda ignoraríamos nossas existências por um tempo aleatório. Mas não é isso o que verdadeiramente importa.

Agora, seu nome foge a minha memória. Talvez eu me recorde depois, mas não acredito vá fazer alguma diferença. Retratei minha grosseria e o disse para se acostumar. Dali pra frente, e eu sabia disto, nossas brigas desnecessárias seriam extremamente comuns. Descobri sua inconstância aos poucos. No primeiro dia, almoçamos juntos. No segundo, fazíamos graça e jogos mudos com quem nos fitavam. Choramos a morte do Senna, desesperadamente lamentamos o suicídio do Kurt Cobain, juntos. E eu não gostava das musicas que ele escutava. Hoje, alguns daqueles barulhos são os únicos sons que consigo ouvir de verdade. Nós já não nos importávamos com os jogos de futebol ou com o aluguel atrasado do meu então vazio apartamento. Estávamos constantemente aprisionados naquele lugar, um no outro. As fugas periódicas não iam mais longe do que ao cinema na esquina de sua casa. Naquele ano conheci alguns diretores que vidravam o seu olhar de tal forma que nem eu conseguia, mas não me importava. Vi-me fascinada quando conseguiu escolher o meu lanche favorito sem minhas dicas ou opiniões. Mostrou-me alguns filmes, e eu o emprestava alguns livros. Nunca passara das primeiras páginas. Ia sempre direto as últimas folhas, me contava o final e tentava adivinhar o resto da história. Pergunto-me se também tentava adivinhar o desenrolar da nossa. Começou assim, do nada, e em pouco tempo éramos como duas metades da mesma pessoa. O ruim é que às vezes não gostamos de nós mesmos. Nossas carcaças começaram a desgastar. O cheiro com que voltava do trabalho me irritava. Eu já não gostava de esperá-lo chegar para começar a minha jornada e a nossa dependência me incomodava demais. E nenhum de nós tinha coragem de enfrentar a verdade. E ninguém queria acreditar. Mas tentamos. Tentamos exaustivamente, tentamos até não podermos mais. Quando decidi partir, estávamos no cinema. Sai em meio uma cena qualquer, e deixei com ele tudo que tinha. Pela primeira vez, desisti. Seu cansaço não me alcançou. Pergunto-me em que estado o deixei: se respirou aliviado ou se lamentou e ruminou por alguns dias a minha permanente ausência ou que fim meus discos levaram. Hoje não sei o que faz ou quem ele agora é. Penso que o vi um dia desses, caminhando na multidão. Pensei em pará-lo e perguntar as horas. Mas dessa forma, nossa história não seria tão interessante a ponto de valer a pena contar-la. Talvez voltemos a nos encontrar ou ainda ignoraríamos nossas existências por um tempo aleatório. Mas não é isso o que verdadeiramente importa.

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Memórias de 94

Era ano de copa. E esses são os poucos e escassos relatos dos quais sou capaz de me lembrar. Não me recordo de onde ele veio. O seu olhar estava completamente perdido, mas quando sorria, era completamente capaz de me convencer o contrário. O seu casaco da marinha era desbotado e  o seu cabelo, constantemente despenteado. Eu estava lá. Sentada no meio da praça. Escondida. Havia uma multidão ali naquele dia, e eu me recordo do seu caminhar torto em minha direção como se ele estivesse vindo agora mesmo. Até hoje não sei por que, em meio de tanta gente, ele escolheu logo a mim. Eu nunca chamei atenção e tampouco tive se quer já tive algo de extraordinário. Na época, mal tinha dinheiro no bolso pra pegar o ônibus de volta pra casa depois daquele trabalho imundo que haviam me arranjado. Eu o largaria em menos de uma semana. Talvez se não tivesse o conhecido, ainda estaria fazendo contas e passando notas a limpo. Talvez eu já  tivesse sido promovida e ganharia o suficiente para pagar o aluguel de um cômodo mais decente do que esse… Mas isso já não mais me importa. Ele parou estrategicamente em minha frente, bloqueando o nada que eu então observava. O encarei por alguns segundos. Vi que não desistiria, e então fiz questão de direcionar meu foco para outro canto qualquer. Ainda não sabia, mas ele seria chato e irritante assim sempre. E sua inconveniência me faria gostar mais das suas piadas sem graça em plenos almoços, e sua insistência me deixaria completamente dependente de sua presença. Mas eu ainda levaria um bom tempo para descobrir isso.

Como não disse nada por um longo intervalo de 30 segundos, logo assumi que o próprio não sabia o que queria. Suas primeiras palavras foram algo como “Não está me vendo aqui?”. Minha acidez matinal não me permitiu outra resposta. Preferia não estar. Pude ver, pela única vez, a decepção em seus olhos. Não era o tipo de cara acostumado a receber esse tipo de resposta. Aposto que na escola, era dos rapazes mais requisitados, e aproveitava isso muito bem. Sua aparência era vistosa, e me agradava – até demais, embora não tivesse percebido assim, de primeira vista. Estava indevidamente ocupada com um daqueles livros inúteis que gostava naquela época. E ele não insistiu, o que realmente me incomodou. Eu também nunca estive acostumada em ter atenção, então pelo desastre de reconhecimento, estávamos quites. Levantei, deixando meu pequeno almanaque no banco descascado e fui ao que, pode-se chamar de, nosso pequeno contato físico-emocional. Não pedi desculpas ou o número de seu telefone. Não fui educada nem simpática, mas tenho quase certeza de que foi ali que o tive pela primeira vez. Perguntei se estava precisando de algo, em uma tentativa tola de puxar conversa e retalhar minha típica brutalidade. A resposta foi das mais banais, e por isso ainda acho que foi uma mentira das bem improvisadas. Ele não queria só as horas, pois mais tarde, naquele dia, pude perceber um relógio coberto por suas mangas. Informei-o horário e vi seu desapontamento logo em seguida. Era segunda-feira, e ninguém era masoquista o suficiente para gostar daquele dia em si. Mas o jogo do Brasil contra a Rússia era uma ótima desculpa para faltarmos ao serviço. Uma pena que não interromperia o turno inteiro. Ainda faltavam duas horas para o início da partida. Só voltaríamos a nos ver depois do intervalo do almoço, se eu o convidasse para um café, e eu nunca fui de perder oportunidades.

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Ps.: É a primeira parte do conto. A história completa será postada aos poucos. Fiquem atentos para atualizações da continuação.

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Lonely Hearts Club Band

Giovanni se isolava, passando seus dias em busca de um roteiro qualquer que o tirasse da mediocridade e miséria que se perpetuava. Seu nome ainda era adorado por aqueles que tinham esquecido seus fracassos em preto e branco e guardavam a copia exemplar da única coisa que fizera que o trouxesse algum orgulho. Seu copo, sempre meio vazio, e ele, sempre meio acabado. Mas precisava daquilo. Enquanto estava com a câmera na mão, poderia tomar o rumo que quisesse, ao contrario de sua própria realidade. Nada o faria superar seus romances perdidos nos sets de filmagem e os cheques sem fundo que voltavam no dia 12 de cada mês. Não era uma questão de tempo, e sua criação estava proporcionalmente ligada a sua destruição, que aos poucos, se agravava cada vez mais. A criatividade requer coragem. Ele sabia disso, mas insistia em não colaborar. As únicas jornadas de Giovanni fora de casa eram buscas por cervejas e cigarros. Já passava das 11 numa noite de quinta e a cidade já estava fechada para balanço. O mercado mais próximo num raio de 5 km estava a dois quarteirões que pareciam estar mais distantes em cada passo tomado. Ele queria registrar cada carro que passava, cada barulho que ouvia, cada prego em que pisava. Mas seria tudo mediocremente igual. O cotidiano já não atraia a mais ninguém, e só aumentaria a profundidade do seu afogamento decadente. Chegou ao mercado. A moça no balcão perguntou se levaria o de sempre.  Em um tom seco, disse que essa noite, sua única companhia seriam os cigarros.  Retornava então a sua odisséia noturna. Os anéis de fumaça o acompanhavam e dialogavam em silencio. Giovanni não dormia há três dias, mas nunca estava realmente acordado. Dependia de comprimidos deixados pela ex-mulher para as três ou quatro horas de sono. Não era suficiente. Nada era o bastante. Precisava de algo que não sabia o que era. A busca por algo desconhecido logo se tornara uma obsessão, e sua única vitima era si mesmo. O seu pior erro era ter medo demais de cometer um. Giovanni estava sufocado. Precisava fugir da monotonia. Sua vida era uma prisão, e ele mesmo era o policial encarregado de sua cela que, ignorantemente, não se permitia nem o banho de sol. Precisava do impulso para a imaginação. Desesperado e sem esperanças, se vencia aos poucos ao vagar por ruas vazias em busca de inspiração, embora soubesse que a chance de encontrá-la era menor que o saldo em sua conta corrente. Cada minuto parecia se estender a eternidade e nada prendia sua atenção. Giovanni precisava de uma amante constante, embora não quisesse admitir. Alguém que passasse a madrugada de terça para quarta em sua casa e fosse embora sem arrumar a cama não era mais suficiente. Foi numa manhã nublada de segunda, em busca do expresso perfeito que as pupilas de Giovanni se dilataram. Poderia ser o cansaço, mas de certo modo, ele havia esperado a vida toda para encontrar aquele certo alguém. Mas a aproximação, tantas vezes filmada, nunca sairia da forma que tanto almejou. Os dias que se arrastavam pelo calendário, depois daquele momento passariam em uma velocidade surpreendente. O mundo parecia ter parado. Pela primeira vez, Giovanni não sabia o que realmente fazer. A mulher parada na livraria era agradável aos olhos de Giovanni e tinha um álbum dos Beatles em suas mãos. Parecia conversar consigo mesma, discutindo com o seu ego a genialidade de Lennon ou de McCartney. Giovanni aos poucos se aproximava com seu café na mão. Tudo e nada poderia acontecer ao mesmo tempo. O nervosismo o fazia tremer e soltar frases estúpidas continuamente.
- Não gosto dos Beatles. Comerciais demais.
Ela simplesmente o ignorou e continuou prestando atenção em seus discos enquanto desviava daquele cara intrometido e com péssimo gosto musical. Não passava por sua cabeça como alguém poderia não gostar daquilo que ela mais amava, depois de si mesma. Giovanni não desistiria fácil. Ele continuou a observá-la, fria e arrogante, indiferente a tudo que a rodeava.
- Meu nome é Giovanni. Posso te pagar uma bebida?
Ela respirou fundo antes de dizer qualquer coisa. A única palavra que ele até então escutaria de sua boca seria um não, engolido a seco. Se Giovanni não tivesse esbarrado acidentalmente e derrubado o café em sua blusa nova, seria aquela a ultima e única vez que se viram.
- Você é um babaca.
Giovanni logo tirou sua jaqueta e a entregou, com a intenção de esconder o estrago que tinha feito. Ela só arrancou a jaqueta de sua mão e saiu enfurecida. Ele não se surpreendeu. Já estava acostumado a fazer tudo errado. Alem da jaqueta, teria que dormir sem a oportunidade de te-la.  Conformado com o fracasso, Giovanni voltou ao seu cativeiro, como se tivesse articulado uma fuga impressionante e logo após de realizada, teria se arrependido de seu feito. Quanto mais o desprezasse, mais a desejaria. Aquela imagem não abandonava sua mente, e de certa forma, ele gostava. Não sabia se a veria novamente, mas a simples possibilidade era empolgante e suficiente para fazê-lo vencer o relógio. Não foi preciso que dormisse para que a encontrasse em um sonho bizarro. A campainha tocou logo pela noite, enquanto Giovanni resmungava vestindo uma camiseta qualquer pra atender a porta. Esfregou bastante os olhos ao abri-la e deparar-se com a imagem que o perseguiu durante todo aquele dia. Não sabia como, mas ela realmente estava lá.
- Desculpe-me, não tive um bom dia. Obrigada pela jaqueta. O convite de mais cedo ainda está de pé?
Aquelas palavras caíram como bombas na cabeça de Giovanni, e embora tenha demorado a processá-las, logo a convidou para entrar.
Vicky era uma escritora medíocre em busca desesperada de publicar seu primeiro livro. Seu desprezo por tudo e por todos camuflava a sua insegurança, que a tornava uma pessoa frágil embora sempre aparentasse o contrario. Não havia alguém egocêntrico como ela. Sacrificaria qualquer coisa para conseguir o que queria, mesmo se nem soubesse o que era. Ela era seu assunto favorito, mas Giovanni não importava de escutá-la por horas, contanto que pudesse olhar fixamente em seus olhos claros e os lábios realçados pelo batom exótico. Já Vicky o via como uma válvula de escape, a sua conexão com o mundo, já que passava mais tempo agrupando palavras sem nexo em frases idiotas, que eram apagadas logo após serem escritas, do que lembrando que existia um mundo de verdade lá fora.
Giovanni tinha esquecido como era a vida em cores. O monocromático já havia a tanto tomado conta de sua vida, que fazia parte dela, e seria difícil imagina-la de uma outra forma se não o preto no branco. E a cor estava de volta aos seus olhos. Eles poderiam passar horas ali, num sofá esverdeado, falando sobre cinema ou a tonalidade das folhas – contanto que não tocassem no assunto Beatles, e até o silêncio, as vezes, constrangedor, era o melhor dos diálogos. Já passava das duas da manha, e Vicky se despediu de sua nova aquisição sentimental com uma promessa de um novo encontro no dia seguinte. Giovanni não conseguia entender. Em menos de 24 horas, alguém havia comprometido toda a sua perspectiva de tudo. Mas para ela, era tudo exatamente igual, e ele era só um mero personagem em sua trama ainda sem inicio e fim. Mesmo que ele não existisse, Vicky tinha convicção de que o criaria assim que seu bloqueio criativo passasse. Ela podia não saber, mas não estava mais tão imune a agentes exteriores,  e seu sistema imunológico logo estaria em baixa. Ela ainda não havia descoberto, mas achara ali, inspiração para toda a sua vida.
Passaram a se encontrar diariamente, das quatro a meia-noite. Ele havia voltado a filmar, e ela, voltado a viver. A queria como nunca quis se quer a si mesmo. Era como se fossem as duas metades de uma mesma pessoa, de uma forma que não mais existiriam sem o seu próprio conjunto. Mas ela era orgulhosa demais para admitir que quisesse estar ao seu lado. Não podiam se ter, mas se tinham o suficiente para encontrarem um estimulo a suas existências precárias. Queriam gritar ao mundo, e se calar de uma nova forma, por um segundo, o quanto se amavam, preparar o café da manha usando só uma camisa de botões e como tinham se descoberto num parâmetro incomparável de sentimentalismo arcaico. Ninguém cederia. O tédio permaneceria entre uma tragédia e um gole de café. E era tédio, de qualquer forma. Mas a dois, sempre seria mais interessante. Com as frases de Vicky e a cenas de Giovanni, estaria ali um filme perfeito, se alguém se propusesse a o realizar.

Giovanni se isolava, passando seus dias em busca de um roteiro qualquer que o tirasse da mediocridade e miséria que se perpetuava. Seu nome ainda era adorado por aqueles que tinham esquecido seus fracassos em preto e branco e guardavam a copia exemplar da única coisa que fizera que o trouxesse algum orgulho. Seu copo, sempre meio vazio, e ele, sempre meio acabado. Mas precisava daquilo. Enquanto estava com a câmera na mão, poderia tomar o rumo que quisesse, ao contrario de sua própria realidade. Nada o faria superar seus romances perdidos nos sets de filmagem e os cheques sem fundo que voltavam no dia 12 de cada mês. Não era uma questão de tempo, e sua criação estava proporcionalmente ligada a sua destruição, que aos poucos, se agravava cada vez mais. A criatividade requer coragem. Ele sabia disso, mas insistia em não colaborar. As únicas jornadas de Giovanni fora de casa eram buscas por cervejas e cigarros. Já passava das 11 numa noite de quinta e a cidade já estava fechada para balanço. O mercado mais próximo num raio de 5 km estava a dois quarteirões que pareciam estar mais distantes em cada passo tomado. Ele queria registrar cada carro que passava, cada barulho que ouvia, cada prego em que pisava. Mas seria tudo mediocremente igual. O cotidiano já não atraia a mais ninguém, e só aumentaria a profundidade do seu afogamento decadente. Chegou ao mercado. A moça no balcão perguntou se levaria o de sempre.  Em um tom seco, disse que essa noite, sua única companhia seriam os cigarros.  Retornava então a sua odisséia noturna. Os anéis de fumaça o acompanhavam e dialogavam em silencio. Giovanni não dormia há três dias, mas nunca estava realmente acordado. Dependia de comprimidos deixados pela ex-mulher para as três ou quatro horas de sono. Não era suficiente. Nada era o bastante. Precisava de algo que não sabia o que era. A busca por algo desconhecido logo se tornara uma obsessão, e sua única vitima era si mesmo. O seu pior erro era ter medo demais de cometer um. Giovanni estava sufocado. Precisava fugir da monotonia. Sua vida era uma prisão, e ele mesmo era o policial encarregado de sua cela que, ignorantemente, não se permitia nem o banho de sol. Precisava do impulso para a imaginação. Desesperado e sem esperanças, se vencia aos poucos ao vagar por ruas vazias em busca de inspiração, embora soubesse que a chance de encontrá-la era menor que o saldo em sua conta corrente. Cada minuto parecia se estender a eternidade e nada prendia sua atenção. Giovanni precisava de uma amante constante, embora não quisesse admitir. Alguém que passasse a madrugada de terça para quarta em sua casa e fosse embora sem arrumar a cama não era mais suficiente. Foi numa manhã nublada de segunda, em busca do expresso perfeito que as pupilas de Giovanni se dilataram. Poderia ser o cansaço, mas de certo modo, ele havia esperado a vida toda para encontrar aquele certo alguém. Mas a aproximação, tantas vezes filmada, nunca sairia da forma que tanto almejou. Os dias que se arrastavam pelo calendário, depois daquele momento passariam em uma velocidade surpreendente. O mundo parecia ter parado. Pela primeira vez, Giovanni não sabia o que realmente fazer. A mulher parada na livraria era agradável aos olhos de Giovanni e tinha um álbum dos Beatles em suas mãos. Parecia conversar consigo mesma, discutindo com o seu ego a genialidade de Lennon ou de McCartney. Giovanni aos poucos se aproximava com seu café na mão. Tudo e nada poderia acontecer ao mesmo tempo. O nervosismo o fazia tremer e soltar frases estúpidas continuamente.

- Não gosto dos Beatles. Comerciais demais.

Ela simplesmente o ignorou e continuou prestando atenção em seus discos enquanto desviava daquele cara intrometido e com péssimo gosto musical. Não passava por sua cabeça como alguém poderia não gostar daquilo que ela mais amava, depois de si mesma. Giovanni não desistiria fácil. Ele continuou a observá-la, fria e arrogante, indiferente a tudo que a rodeava.

- Meu nome é Giovanni. Posso te pagar uma bebida?

Ela respirou fundo antes de dizer qualquer coisa. A única palavra que ele até então escutaria de sua boca seria um não, engolido a seco. Se Giovanni não tivesse esbarrado acidentalmente e derrubado o café em sua blusa nova, seria aquela a ultima e única vez que se viram.

- Você é um babaca.

Giovanni logo tirou sua jaqueta e a entregou, com a intenção de esconder o estrago que tinha feito. Ela só arrancou a jaqueta de sua mão e saiu enfurecida. Ele não se surpreendeu. Já estava acostumado a fazer tudo errado. Alem da jaqueta, teria que dormir sem a oportunidade de te-la.  Conformado com o fracasso, Giovanni voltou ao seu cativeiro, como se tivesse articulado uma fuga impressionante e logo após de realizada, teria se arrependido de seu feito. Quanto mais o desprezasse, mais a desejaria. Aquela imagem não abandonava sua mente, e de certa forma, ele gostava. Não sabia se a veria novamente, mas a simples possibilidade era empolgante e suficiente para fazê-lo vencer o relógio. Não foi preciso que dormisse para que a encontrasse em um sonho bizarro. A campainha tocou logo pela noite, enquanto Giovanni resmungava vestindo uma camiseta qualquer pra atender a porta. Esfregou bastante os olhos ao abri-la e deparar-se com a imagem que o perseguiu durante todo aquele dia. Não sabia como, mas ela realmente estava lá.

- Desculpe-me, não tive um bom dia. Obrigada pela jaqueta. O convite de mais cedo ainda está de pé?

Aquelas palavras caíram como bombas na cabeça de Giovanni, e embora tenha demorado a processá-las, logo a convidou para entrar.

Vicky era uma escritora medíocre em busca desesperada de publicar seu primeiro livro. Seu desprezo por tudo e por todos camuflava a sua insegurança, que a tornava uma pessoa frágil embora sempre aparentasse o contrario. Não havia alguém egocêntrico como ela. Sacrificaria qualquer coisa para conseguir o que queria, mesmo se nem soubesse o que era. Ela era seu assunto favorito, mas Giovanni não importava de escutá-la por horas, contanto que pudesse olhar fixamente em seus olhos claros e os lábios realçados pelo batom exótico. Já Vicky o via como uma válvula de escape, a sua conexão com o mundo, já que passava mais tempo agrupando palavras sem nexo em frases idiotas, que eram apagadas logo após serem escritas, do que lembrando que existia um mundo de verdade lá fora.

Giovanni tinha esquecido como era a vida em cores. O monocromático já havia a tanto tomado conta de sua vida, que fazia parte dela, e seria difícil imagina-la de uma outra forma se não o preto no branco. E a cor estava de volta aos seus olhos. Eles poderiam passar horas ali, num sofá esverdeado, falando sobre cinema ou a tonalidade das folhas – contanto que não tocassem no assunto Beatles, e até o silêncio, as vezes, constrangedor, era o melhor dos diálogos. Já passava das duas da manha, e Vicky se despediu de sua nova aquisição sentimental com uma promessa de um novo encontro no dia seguinte. Giovanni não conseguia entender. Em menos de 24 horas, alguém havia comprometido toda a sua perspectiva de tudo. Mas para ela, era tudo exatamente igual, e ele era só um mero personagem em sua trama ainda sem inicio e fim. Mesmo que ele não existisse, Vicky tinha convicção de que o criaria assim que seu bloqueio criativo passasse. Ela podia não saber, mas não estava mais tão imune a agentes exteriores,  e seu sistema imunológico logo estaria em baixa. Ela ainda não havia descoberto, mas achara ali, inspiração para toda a sua vida.

Passaram a se encontrar diariamente, das quatro a meia-noite. Ele havia voltado a filmar, e ela, voltado a viver. A queria como nunca quis se quer a si mesmo. Era como se fossem as duas metades de uma mesma pessoa, de uma forma que não mais existiriam sem o seu próprio conjunto. Mas ela era orgulhosa demais para admitir que quisesse estar ao seu lado. Não podiam se ter, mas se tinham o suficiente para encontrarem um estimulo a suas existências precárias. Queriam gritar ao mundo, e se calar de uma nova forma, por um segundo, o quanto se amavam, preparar o café da manha usando só uma camisa de botões e como tinham se descoberto num parâmetro incomparável de sentimentalismo arcaico. Ninguém cederia. O tédio permaneceria entre uma tragédia e um gole de café. E era tédio, de qualquer forma. Mas a dois, sempre seria mais interessante. Com as frases de Vicky e a cenas de Giovanni, estaria ali um filme perfeito, se alguém se propusesse a o realizar.

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