Torradas Tostadas

Inadequação

Você se lembra de quando chegou.
Eu estava ali.
Onde sempre estive.
Com meus papéis pálidos e rasgados ao meio e preparada para metralhar qualquer um que cruzasse o limite da minha zona conflitante que sempre foi a minha vida.
Mas você me desarmou.
Com um olhar de canto.
Toda minha artilharia pesada estava ali, espalhada no chão imundo.
E eu não me preocupei em recolhê-la enquanto você escutava os meus problemas e fingia se importar, embora achasse tudo muito desnecessário ou supérfluo.
Você precisava de um ombro amigo, eu lhe dei um abraço.
Eu precisava de um ritmo, você me deu uma melodia inteira.
Antes, eu não caminhava por aqui com o coração fora do peito.
Agora, ele estava ali.
Escancarado, ao meu lado.
E dizia coisas que eu nem sempre queria ouvir.
Minhas palavras também não eram moderadas.
Nunca foram.
E você facilmente encontraria quem te dissesse mentiras em qualquer lugar.
É o que as pessoas fazem.
Mas eu não estancaria inverdades no seu corpo.
Sim, deixaria marcas, cicatrizes tão fortes que o tempo não fecharia, mas não tão profundas quanto mentiras.
Não te faria acreditar naquilo que não sentisse.
Convencer-te daquilo que de fato sentia, já era suficientemente trabalhoso.
Você estava então ali, ocupando um espaço que até então era uma sala vaga anteriormente decorada com cores horrorosas por amantes incompetentes.
Mas não.
Você não era o único que precisava ser salvo.

20080404170725

posted by Nina R. in Poemas and have Comments (2)

Rouquidão

Meu coração tosse para fora
Uma turva e obsolenta secreção
De dentro, o escarro
Busca o inútil amparo
E no copo, a obsessão
Sentimentos, tão pequenos
Poderiam estar abertos
Na palma da mão
Mas estão cobertos
Estão dispersos indo por ai
Escorrendo entre os dedos
Sem nenhuma direção.

não.

posted by Nina R. in Poemas and have Comments (4)

Domingo

Se não fosse eu quem te contasse as novidades, você provavelmente não acreditaria. É incrível como as coisas mudam drasticamente em um espaço relativamente tão curto de tempo. Eu sinto a sua falta. Ela dói em mim em todos os cantos da casa, em todos os ossos do meu corpo. É contínua. Seu sorriso amarelado pelos inúmeros cafés que provamos pelas tardes deixa um gosto amargo em minhas manhãs. É como pedir um expresso duplo mesmo sabendo que não há açúcar que o adoce suficientemente para torná-lo bebível. E no auge do desespero, entorna-lo queimando a garganta por inteiro, e enquanto entre lágrimas e risos discretos, lembro-me dos abraços apertados, que duravam o tempo do alarme do portão disparar. Pensei muito no que queria te dizer. Tenho visto alguns filmes interessantes, escutado músicas legais, andado por ai com companhias agradáveis. Mas não tenho tanto assim o que falar. Eu posso até estar feliz, posso até estar realizada… Mas nunca mais estarei completa.

posted by Nina R. in Devaneios and have Comments (3)

Caixa Preta

Isso não são horas! Apague a luz e guarde essa caixa.
Quem nesses dias se interessa por… memórias? Versos recém-escritos, desenhos mal acabados. Romances antigos em frascos vazios, embalagens rasgadas, o verão, o frio… As lembranças monopolizadas, a primeira noite de lua cheia, a dor escancarada e exposta, injetada na veia. Guarde essa caixa, ela é grande demais, ela é pesada… Mas não ouse dizer que não serve para nada. Só você mesmo para me fazer carregá-la para todo canto, mas que essa história toda tem o seu encanto… Ah! Ninguém há de negar. istock_000006836956xsmall

posted by Nina R. in Devaneios and have Comments (2)

Quadrilha Moderna

Mick Jagger escutava Janis Joplin, que escutava John Lennon, que escutava Bob Dylan, escutava Chuck Berry, que escutava Beethoven que não escutava ninguém, pois o coitadinho era surdo. Mick Jagger pegou David Bowie, Janis Joplin teve um caso com Serguei, John Lennon morreu assassinado, Bob Dylan está soprando no vento, Chuck Berry passou de pai a avô do rock e Beethoven não conseguiu o cargo de musico mais brilhante da história porque Mozart chegou primeiro. E o pobre do mundo continua a escutar a banda Cine e o filho do Fábio Junior, que infelizmente, entraram de sopapo na história.

posted by Nina R. in Humor and have Comments (7)

Vazio

Naquela semana, a adorável gatinha foi embora. E depois disso, o telefone não tocou de manhã desejando um bom dia e nem as vinte pras dez, onde uma voz desconhecida avisava que alguém queria me dizer algo. Dizia sempre a mesma coisa, mas nunca soava exaustivo. Nunca. Não chegaram mais mensagens com letras de musicas ou de pequenos poemas concebidos na hora. A caixa do correio permaneceu vazia. Não havia mais a quem emprestar livros novos já grifados ou roubar aqueles que já exalavam os sentimentos das décadas passadas. Ninguém debocharia dos socialites que suplicavam comida nos restaurantes dos shoppings da cidade, e ninguém comentaria da superficialidade presente nas relações profundas como um pires. Os cafés já não têm o mesmo gosto. Acompanhados por chantilly ou um biscoito banhado de chocolate. Perdeu o doce, por mais amargo que fosse. As voltas na praça, cheias de conhecidos e sorrisos… Vazias. Já não há quem comente de sua beleza, de sua autenticidade e dê umas boas broncas pela inútil tristeza por acontecimentos meramente insignificantes. Os filmes perderam o tom. O mundo tornou-se mais azul. Perdeu uma estrela. Nas fugas, não haverá mais quem escute Chico ou cante Dylan totalmente errado. Não há quem mais quem salve das aulas chatas, com um atestado ou com uma simples desculpa de querer ver. Os planos mirabolantes de viagens malucas, o sorvete de manga, as flores compradas no mercado enquanto esperava pacientemente a cerveja terminar no boteco no segundo andar. Traga uma garrafa de coca-cola, uma barra de chocolate… Mas não deixe de vir me ver. Com esse olhar. Com essa felicidade. Com a promessa que tudo ficará bem. Me resta uns versos. E um amor incondicional. Quem pagará o enterro e as flores, se um dia eu morrer de amores? Pago com algumas lágrimas e várias lembranças. Todas maravilhosas. Tenho certeza de que ele riria de alguém sofrendo tanto por um velho gordo que conta tantas piadas sem graça… Há uma dor, um vazio incalculável. Uma grande parte de mim se foi. Mas a outra – aquela que foi sempre sua -, vai continuar mais viva do que nunca, em cada música sussurrada no som do carro, e nos muitos textos que ainda virão, mas agora, sem o seu choro de orgulho (ou de vergonha!) em cada vírgula, pois nunca haverá um ponto final. E se precisar de tempo, que venha. Mas onde quer que tenha ido, tenho certeza: sua pança de chopp chegou primeiro, junto com um abraço, bem apertado, daqueles do fim da tarde. Pai. Papai. Paizinho. Gordão. E que venha o tempo
OQAAAMTu9kGoCa13GEGC798xawWO1td0fPixZUY-ywtfNZMeHuogoIMOqenxCjLrgtN-5dXWYkoW7mfo_jlHS3veykgAm1T1UFqDJDDfndYVZEVV9NHv6gRu5Egw

posted by Nina R. in 1 and have Comments (20)

Vida Longa ao Rock’n'Roll!

E para comemorar, uma playlist dedicada ao nosso tão amado rock :}

tumblr_kvunklkz861qaotlmo1_500_large
1) Minha vida é rock’n'roll – Velhas Virgens
2) The Seeker – The Who
3) It’s only rock’n'roll (ao vivo) – Rolling Stones
4) Born to be wild – Stepenwolf
5) Sick sick sick – Queens of the Stone Age
6) Helter Skelter (Beatles cover) – Oasis
7) Rock and roll all night – Kiss
8) I fought the law – The Clash
9) Rock’n'roll High School – Ramones
10) Let there be rock – AC/DC
11) Magic Travel – Black Drawing Chalks
12) You really got me – Kinks
13) Rollover Beethoven – Chuck Berry
14) I’m in the band – The Hellacopters
15) Your Pretty Face is going to Hell – Iggy Pop and the Stooges

Para fazer o download e curtir esses sons legais quantas vezes quiser é só clicar aqui.

posted by Nina R. in Música and have Comments (3)

Prólogo

Seria extremamente desumano caso eu não amaciasse os novos calçados antes de correr uma maratona. Os calos, as bolhas, os danos, certamente não seriam irreversíveis, mas sem duvidas, levariam um tempo considerável para se regenerarem – ainda que nunca fosse por inteiro. Tenho que afagar as paginas que escrevo antes que mutile-as permanentemente, Agora sim, é irreversível. As pautas carregarão até que o carbono se desintegre no aterro sanitário mais próximo, ou que as traças descubram o esconderijo privilegiado no lugar mais alto de uma estante. É preciso preparar o destino para sua sina. Pobres daqueles fadados a isso ou aquilo. Mas já que estão aqui, de nada custa o consolo, a caricia indevida antes que eu acabe com elas por inteiro. Só sabe-se que essas páginas conceberão palavras intensas, emergindo de um lado da massa cinzenta que esteve colorida demais. Ora trará uma insuportável euforia, ora a dor será tão grande que é impossível mesmo perceber. Não há um manual que dita o que sentir – seria bem mais fácil se existisse. A partir daqui, tudo é verdadeiro, embora nem tudo se faça tão real ou efetivamente concreto. Soa maldade avisar o que talvez nem esteja a caminho, mas todos precisam de preliminares. E termina-las… É gratificante.437043207_63bba8270d_z_large

posted by Nina R. in Devaneios and have Comments (3)
Tags:

A arte do insulto

Tem gente que já nasce com o dom de saber xingar. Fico feliz por estar entre esses privilegiados, mas não custa nada aprimorar, ainda mais quando se tem inspirações como essas. E convenhamos: os gangsters e mafiosos sabem xingar como ninguém. Pra quem anda falando que vai xingar muito no Twitter e acha tudo uma puta falta de sacanagem, fica o aprendizado. Só não venha treinar comigo. :)

(Via Brainstorm9)

posted by Nina R. in Cinema and have Comments (2)

Instantâneo

Tentativa frustrada de glorificar a miséria. Tempos escassos… Tempos difíceis. Enquanto preparava o miojo, ela acendeu algumas velas. Clichê barato. Massa, romance, e uma iluminação indireta. Três minutos depois, com o alarme do microondas e o momento certo para adicionar o tempero, veio também um novo ingrediente.
- Eu não te amo mais.
- Desde quando?
- Desde agora. Assim. Subitamente.

500px_by_v_reshete_c6ae4994172l_large

posted by Nina R. in Contos and have Comments (3)