
Pedro e Mariana se conheceram no supermercado.
Ela reabastecia o seu estoque de comidas congeladas da semana e ele escolhia minuciosamente os temperos que mais combinariam com a carne que acompanharia o seu vinho favorito. Pedro adorava cozinhar e preparar refeições sofisticadas o aliviava das tensões diárias – mas as suas porções eram sempre únicas. Mariana não tinha tempo para a gastronomia, nem dinheiro para restaurantes chiques. Suas opções eram escassas e quase sempre restritas aos diversos sabores de macarrão instantâneo. Todos eles tinham gosto de solidão.
Na fila do caixa a atendente apressada confundiu as compras, e depois de mil desculpas, um erro nunca foi tão bem vindo. Trocaram sorrisos e telefones. Saíram para jantar na noite seguinte. Ele contava do quanto o seu trabalho era estressante e ela o escutava paciente, ansiosa para que sua vida um dia também fosse tão empolgante. Ela reclamava do quanto estava sempre muito ocupada e ele a tranquilizava, dizendo que logo todo o esforço valeria a pena. Combinaram de se encontrarem na semana seguinte. E na outra também.
Poucos meses depois, decidiram morar juntos. Encontraram um apartamento de dois cômodos no meio do caos urbano e tiveram a primeira briga ao escolher a cor da parede da sala. Entre o amarelo e salmão, tudo ficou no branco. Pedro comprou vasinhos coloridos e plantou pequenas amostras de seus temperos favoritos na cozinha. Ervas finas, manjericão e até uma pimenta dedo-de-moça. Todo os dias, antes de preparar o jantar, colhia exemplares frescos para incrementar seus pratos. Alecrim para as carnes, salsa para os legumes. Ele se vangloriava de como conseguia cultivar tudo sem agrotóxicos ou muito esforço e Mariana aguava a pequena horta enquanto suspirava aliviada por não viver mais a base de lasanhas congeladas.
Depois que Pedro foi promovido no trabalho, o seu tempo na cozinha foi drasticamente reduzido. O cotidiano de Mariana se tornava cada vez mais frenético e não demorou muito para que ela deixasse a horta – e todas as outras coisas – de lado. Ninguém mais lembrava de regá-la. Aos poucos, tudo secou.
O pé de hortelã morreu, o de manjericão não vingou.
O único que restou foi o pé na bunda.